Uma casa na escuridão


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Uma casa na escuridão
Una casa nell’oscurità


Fecho os olhos e está tudo dentro de mim:
a casa, o homem sem pernas e sem braços,
a música. E as sombras, claro. Atravessei
muitas vezes as sombras, escrevi-as
em pensamentos que decidi não publicar.
Há um tempo que continua e há um tempo
que permanece. No mundo tangível,
refém de notícias de jornal e de misérias,
a escrava envelheceu. Mas dentro de mim,
terá sempre a pele constante dos sussurros.
Há dias em que me suplica para ser escrita,
fala-me de calicatri, tenta hipnotizar-me.
Mas agora sou adulto e tenho medo,
também eu sou cativo de alguma coisa
que levo no meu interior. Sim, o abismo
de estar dentro de mim a estar dentro
de mim a estar dentro de mim, como
um espelho a refletir outro espelho,
como uma explicação da eternidade.
Mas um dia, vais ver, abrirei o peito
às invasões, às espadas, ao sangue,
e toda a verdade será rasgada e exposta.
A luz e a escuridão. Sempre essa guerra:
a luz e a escuridão.
Chiudo gli occhi e tutto sta dentro di me:
la casa, l’uomo senza gambe e senza braccia,
la musica. E le ombre, certo. Ho attraversato
molte volte le ombre, le ho descritte
in pensieri che ho deciso di non pubblicare.
Vi è un tempo che prosegue e vi è un tempo
che permane. Nel mondo tangibile,
ostaggio di notizie di giornali e di miserie,
la schiava è invecchiata. Ma dentro di me,
avrà sempre la patina tenace dei sussurri.
Certi giorni mi supplica d’essere descritta,
mi parla di calicatri, tenta d’ipnotizzarmi.
Ma ora sono adulto ed ho paura,
anch’io sono prigioniero di qualcosa
che porto dentro di me. Sì, l’abisso
di stare dentro di me che sto dentro
di me che sto dentro di me, come
uno specchio che riflette un altro specchio,
come una spiegazione dell’eternità.
Ma un giorno, vedrai, aprirò il petto
alle invasioni, alle spade, al sangue,
e tutta la verità sarà strappata ed esposta.
La luce e l’oscurità. Sempre questa guerra:
la luce e l’oscurità.
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Marc Chagall
Il cavallo galoppa nella notte (1943)
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