Hoje acordei na dispersão cinzenta...


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Hoje acordei na dispersão cinzenta...
Oggi mi son svegliato nel grigio sbandamento...


Hoje acordei na dispersão cinzenta
dum dia decepado... Com o corpo dividido,
as imagens sem olhos,
os gestos a fugirem-me dos dedos
- e a sombra esquecida no quarto ao lado.

Desatado de mim,
andei todo o dia assim
com os passos nas nuvens,
os pés na terra,
as mãos a estrangularem o nevoeiro,
e os olhos... Ah! os meus olhos onde estão?

(Só há momentos me encontrei por inteiro
num charco a evaporar-se do chão...)
Oggi mi son svegliato nel grigio sbandamento
d’un giorno decapitato... Col corpo diviso,
le immagini senz’occhi,
i gesti sfuggenti dalle dita
- e l’ombra scordata nella stanza accanto.

Scollegato da me,
ho vagato tutto il giorno così
coi passi tra le nuvole,
i piedi a terra,
le mani intente a strangolare la nebbia,
e gli occhi... Ah! dove sono i miei occhi?

(Solo poco fa m’ero ritrovato tutt’intero
in una pozzanghera che stava evaporando...)
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Georges Braque
Uomo con chitarra (1912)
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Entrei no café...


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Entrei no café...
Sono entrato nel caffè...


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
Sono entrato nel caffè con un fiume in tasca
e l’ho posato a terra,
per vederlo scorrer via
dalla fantasia...

In seguito, ho tolto dal taschino del gilet
nuvole e stelle
e ho steso un tappeto
di fiori
per immaginarle.

Poi, appoggiato al tavolino,
ho tolto di bocca un uccello canoro
e con questo ho agghindato la Natura
degli alberi circostanti
per dar loro il profumo del chiar di luna
che io m’immagino.

E adesso sto qui a sentire
la melodia senza enfasi
di questa casualità d’esistere
- dove io non cerco che la Bellezza
per illudermi
che ci sia un destino.
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Gustav Klimt
Giardino in fiore (1907)
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Café


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Café
Caffè


(Finjo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atavessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...
   
E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.
(Fingo di non vedere le donne che passano, ma le vedo)

Di botto, il diavoletto che mi danzava sugli occhi,
al veder la fanciulla attraversar la strada,
sobbalzò con impeto di scarabeo
e di tutto la lasciò spogliata...
   
E Colei-Che-Se-La-Tira-Tanto
si ritrovò nuda,
sonnambulamente nuda,
con un seno d’oro
e l’altro d’argento.
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Tiziano
Giovane donna con cappello piumato (1534-1536)
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Aquela nuvem


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Aquela nuvem
Quella nuvola


(Na praia. O menino aprende
a linguagem das nuvens.)


Aquela nuvem
parece um cavalo…

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?
Mas já não é um cavalo,
É uma barca à vela.

Não faz mal.
Queria embarcar nela.

Aquela?
Mas já não é um navio,
é uma torre amarela
a vogar no frio
onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.
Quero ter asas
para a espreitar da janela.

Vá, lancem-me no mar
donde voam as nuvens
para ir numa delas
tomar mil formas
com sabor a sal

- Labirinto de sombras e de cisnes
No céu de água-sol-vento-luz
concreto e irreal…
(Sulla spiaggia. Il bambino impara
il linguaggio delle nuvole.)


Quella nuvola
sembra un cavallo…

Ah! Se potessi montarlo!

Quella?
Ma non è già più un cavallo,
È una barca a vela.

Non importa.
Vorrei salirci a bordo.

Quella?
Ma non è già più una barca,
è una torre gialla
che fluttua nell’aria fredda
dove hanno rinchiuso una donzella.

Non importa.
Vorrei aver le ali
per guardarla dalla finestra.

Su, gettatemi nel mare
da dove partono le nuvole
per salire su una di quelle
prendere mille forme
dal sapore di sale.

- Labirinto d’ombre e di cigni
Nel cielo d’acqua-sole-vento-luce
concreto e irreale…
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Andrea Mantegna
Oculo con putti (1465-1474)
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Viver sempre também cansa...


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Viver sempre também cansa...
Anche di viver sempre ci si stanca...


Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
Anche di viver sempre ci si stanca.
Il sole è sempre lo stesso e il cielo blu
ora è blu, d’un bel blu nitido,
ora è grigio, nero, quasi verde...
Ma mai che abbia un colore inatteso.

Il mondo non si modifica.
Gli alberi danno fiori,
foglie, frutti e uccelli
come macchine verdi.

Anche i paesaggi non si trasformano.
Non cade neve rossa,
non ci sono fiori volanti
la luna non ha occhi
e nessuno dipingerà occhi alla luna.

Tutto è uguale, meccanico e preciso.

Come se non bastasse, gli uomini sono uomini.
Piangono, bevono, ridono e digeriscono
senza immaginazione.

E ci sono quartieri miserabili, sempre gli stessi,
discorsi di Mussolini,
guerre, momenti critici,
automobili da corsa...

E m’impongono di vivere fino alla Morte!

Ma allora non era più umano
morire un pochettino,
di tanto in tanto,
e ricominciare dopo,
ritrovando ogni cosa rinnovata?

Ah! se potessi suicidarmi per sei mesi,
morire steso su un divano
con la testa posata su un cuscino,
fiducioso e sereno sapendo
che tu mi veglieresti, amore mio.

E se venisse qualcuno a chiedere di me,
dovresti dire con quel tuo sorriso
ove arde un cuore in melodia:
“Si è ucciso stamattina.
Ora non vorrei resuscitarlo
per una bazzecola”.

E verresti poi, dolcemente,
a vegliare su di me, lieve e premurosa,
in punta di piedi, per non svegliare
la Morte ancora bimba in braccio a me...
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Emil Nolde
Sky and sea (1930)
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