Poeta aos setenta anos


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Poeta aos setenta anos
Poeta a settant’anni


Um gesto a que assomasse algum amor
ou um olhar solidário de velho camarada:
nem eles poderiam já infectar de vida insolente
o deserto dos dias que se movem por detrás das altas
 janelas
ou por dentro dos subterrâneos.

Ninguém mais vem para a varanda cantar teimosamente
o que dói nas nossas vozes e dorme nas nossas veias.
Os sinos continuam a tocar nos dias escuros e claros
sobre ruas desertas ou só atravessadas a medo, porta
 a porta,
vida a esconder-se de viver.

Pela noite alguém escreve, mas sabe que não escreve
 para si
nem para os leitores que perdeu noutras idades.
Que um rosto assome à janela, que um verso se perca
 na rua,
que o nosso orgulho de viver possa durar para além das
 nossas vidas.
Un gesto che mostrasse un po’ d’amore
o uno sguardo fiducioso di un vecchio compagno:
neanche questi potrebbero ormai infettare di vita insolente
il deserto dei giorni che si insinuano dietro le alte
 finestre
o attraverso corridoi sotterranei.

Nessuno più viene alla veranda per cantare spavaldamente
ciò che nelle nostre voci duole e nelle nostre vene dorme.
Le campane seguitano a rintoccare nei giorni scuri e chiari
sopra le strade deserte o attraversate solo con timore, di
 porta in porta,
vita che si nasconde dal vivere.

Qualcuno nella notte scrive, ma sa che non scrive
 per sé
né per i lettori che ha perduto in altri tempi.
Possa un volto affacciarsi alla finestra o un verso perdersi
 nella via,
che il nostro orgoglio di vivere possa durare al di là delle
 nostre vite.
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Scuola italiana (XVII sec.)
Ritratto di poeta nello studio
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A noite de 24 de Abril de 2020


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A noite de 24 de Abril de 2020
La notte del 24 aprile 2020


Ouço a rádio esta madrugada
à espera de uma senha.
Bem sei que tudo o que me devia acontecer
já aconteceu. Bem sei que cada dia
traz consigo uma maré com a espuma da esperança
e que só contamos a nós próprios o naufrágio
muito tarde nas nossas vidas.
Sempre haverá um sinal na noite, uma canção, uma
 luz
de pirilampos sobre o deserto das cigarras.
E seja agora o mais novo quem entende a senha
e a transporta na fúria do seu coração.
Ascolto la radio questa mattina
in attesa di un segnale.
So bene che tutto ciò che mi doveva accadere
già è accaduto. So bene che ogni giorno
reca con sé una marea con la spuma della speranza
e che noi raccontiamo a noi stessi del nostro naufragio
solo molto tardi nella vita.
Ci sarà sempre un segnale nella notte, una canzone, un
 luccichio
di lucciole sopra il deserto delle cicale.
Ed ora che sia il più giovane a riconoscere il segnale
e a trasportarlo nella furia del suo cuore.
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Lari Pittman
Senza titolo (1989)
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Vigília


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Vigília
Veglia


Não te deixes adormecer:
é o que dizem a quem luta por estar vivo,
é o que nos dizemos quando
o frio já entrou muito fundo dentro de nós
e toda a vida se deixou cobrir de nevoeiro.

Não, eu não me deixarei dormir.
Descansa, tu que cada madrugada 
encontras as minhas mãos 
a afastar o frio e o nevoeiro.
Eu não me deixarei dormir.
Nós não nos deixaremos dormir.
O nosso amor é uma vigília sem quebras
e nunca nenhum povo se deixou hibernar.
Non abbandonarti al sonno:
è quel che dicono a chi lotta per restare vivo,
è quello che ci diciamo quando
il freddo è già penetrato molto a fondo in noi
e tutta la vita s’è lasciata avvolgere nella tenebra.

No, io non mi abbandonerò al sonno.
Riposa, tu che al termine d’ogni notte
ritrovi le mie mani
a scacciare il freddo e la tenebra.
Io non mi abbandonerò al sonno.
Noi non ci abbandoneremo al sonno.
Il nostro amore è una veglia ininterrotta
e mai nessun popolo è caduto in letargo.
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Marc Chagall
Gli amanti in verde (1917)
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Resposta


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Resposta
Risposta


Sim, andei por fora,
por vezes não reconheço as ruas da minha cidade
e há rostos que me envelhecem o coração.
Mas não tenha dúvidas, não precisa de fazer perguntas,
de ficar atento aos meus mínimos movimentos,
de esboçar por dentro de si o desenho
daquilo a que chama a minha alma.
Os comboios param em estações abandonadas, noite
 dentro,
e nós saímos como passageiros estremunhados e
 engelhados pelo frio
para cidades desconhecidas, belas e desertas
como todo o tempo que passou.
Sim, eu sei, que estou a fugir ao assunto.
Importa-se de repetir a sua pergunta?
Sì, sono stato all’estero,
certe volte non riconosco le vie della mia città
e ci sono dei volti che invecchiano nel mio cuore.
Ma non dubiti, non occorre fare domande,
fare attenzione ai miei minimi movimenti,
abbozzare dentro di sé il disegno
di ciò che definisce la mia anima.
I treni si fermano in stazioni abbandonate, quand’è
 notte,
e noi scendiamo come passeggeri sonnolenti e
 intorpiditi dal freddo
in città sconosciute, belle e deserte
come tutto il tempo ch’è passato.
Sì, lo so, che sto andando fuori tema.
Le spiace ripetere la sua domanda?
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Concetto Pozzati
Imagologia (2001)
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Regresso


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Regresso
Ritorno


Voltar à poesia, esse caminho estreito
entre a solidão e a vida,
esse jardim onde as flores
crescem para dentro de si próprias,
esse destino sem lugar no mapa.

Voltar à poesia, porque mais nada
cresceu entretanto,
nem palavras nem coisas.

Adivinhávamos promessas no terror dos tempos
e continuámos a andar como se houvesse caminho.
Voltar à poesia, a esta distância sem rumo nem
 projecto,
voltar à poesia para estar mais longe
do que sou.
Tornare alla poesia, questo stretto cammino
tra la solitudine e la vita,
questo giardino dove i fiori
crescono all’interno di sé stessi,
questa destinazione non situata sulla carta.

Tornare alla poesia, perché più niente
è cresciuto nel frattempo,
né parole né cose.

Ipotizzavamo promesse nel terrore dei tempi
e andavamo avanti come se ci fosse un cammino.
Tornare alla poesia, a questa distanza senza meta né
 progetto,
tornare alla poesia per stare il più possibile lontano
da ciò che sono.
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Vincent Van Gogh
Il giardino del poeta (1888)
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