Em momentos espantosos…


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Em momentos espantosos…
In momenti straordinari…


Em momentos espantosos, passeei de mãos dadas com
os meus pais. Essa recordação chega-me em pequenos
goles, como se a provasse de um pequeno cálice, a
minha mãe de um lado e o meu pai do outro. Eu era
a criança. Seguia absolutamente seguro nesse caminho
que, quase sempre, era a rua Augusta, os anos oitenta
do único século que conhecíamos. Recordo o meu pai
e a minha mãe desse tempo,a minha mãe nova, o meu pai
vivo, e parece-me agora imensa a responsabilidade de
carregar a imagem dos seus rostos, o ténue registo
das suas vozes, a memória daquela segurança, certeza
infantil e inabalável que tento ainda sentir. Mas falho
porque me esforçodemasiado. Antes, não conhecia sequer
esta exigência, este abismo, asseava de mãos dadas
com os meus pais e o tempo acabava ali.
In momenti straordinari, ho camminato dando la mano ai
miei genitori. Questo ricordo mi giunge a piccoli sorsi,
come se lo assaggiassi da un piccolo calice, la mia mamma
da un lato e il babbo dall’altro. Io ero un bambino.
Avanzavo assolutamente sicuro per questa strada che,
quasi sempre, era la via Augusta, negli anni ottanta
dell’unico secolo, che conoscevamo. Ricordo il mio babbo
e la mia mamma di quel tempo, la mia mamma giovane, il
mio babbo vivo, e mi sembra ora immensa la responsabilità
di trattenere l’immagine dei loro volti, il tono pacato delle
loro voci, la memoria di quella sicurezza, la certezza
infantile e irremovibile che ancora tento di sentire. Ma
fallisco perché mi sforzo troppo. Allora, non conoscevo
affatto questa esigenza, questo abisso, camminavo dando
la mano ai miei genitori e il tempo finiva lì.
________________

René Magritte
Ritratto della famiglia Giron (1943)
...

Eis Ulisses em seu longo caminho…


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Eis Ulisses em seu longo caminho…
Ecco Ulisse nel suo lungo cammino…


Eis Ulisses em seu longo caminho, avança pelas vagas,
como avança pelos versos, como avança pela espera
de quem olha o horizonte em Ítaca. Eis Ulisses
com seu humano propósito.

A guerra de Troia é uma porta que fechou ao sair, saiu
desalmado; também pode ser uma idade, ou a pessoa
que Ulisses já não quer ser. Sim, a guerra de Troia é a
pessoa que Ulisses já não quer ser.

A embarcação de Ulisses pode ser uma bicicleta
ou um táxi, não importa, pode ser um passeio a pé,
de mãos nos bolsos.

Os dez anos de viagem até Ítaca podem ser dez minutos,
podem ser um telefonema rápido, um vulto
que se distingue ao longe ou, mais provavelmente,
podem ser a vida inteira. Sim, os dez anos de viagem até
 Ítaca
são a vida inteira.

E, claro, Ulisses és tu. Já tinhas percebido, não?
Ulisses és tu, a guerra de Troia és tu, és toda a viagem,
és Ítaca também.

Haverás de chegar. Na hora certa, terás de chegar.
Já te esperam.
Ecco Ulisse nel suo lungo cammino, avanza tra le onde,
come avanza tra i versi, come avanza nell’attesa
di chi guarda l’orizzonte a Itaca. Ecco Ulisse
col suo umano proposito.

La guerra di Troia è una porta che chiuse partendo, e partì
disumano; può anche trattarsi di un’epoca o di una persona
che Ulisse non vuole più essere. Sì, la guerra di Troia è la
persona che Ulisse non vuole più essere.

L’imbarcazione di Ulisse può essere una bicicletta
o un taxi, non importa, può essere una passeggiata a piedi,
con le mani in tasca.

I dieci anni di viaggio per Itaca possono essere dieci minuti,
possono essere una telefonata rapida, una figura
che si distingue da lontano o, più probabilmente,
possono essere la vita intera. Sì, i dieci anni di viaggio per
 Itaca
sono la vita intera.

E, ovvio, Ulisse sei tu. L’avevi già intuito, no?
Ulisse sei tu, la guerra di Troia sei tu, tu sei tutto il viaggio,
e sei anche Itaca.

Finirai con l’arrivarci. Nel momento preciso, dovrai arrivarci.
Già ti stanno aspettando.
________________

Cen Long
Piccolo Sampan (2021)
...

Como numa fotografia…


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Como numa fotografia…
Come in una fotografia…


Como numa fotografia, o instante
em que te distingo da paisagem.
No mundo em absoluto silêncio,
apenas o privilégio dos teus gestos,
a realidade toda feita de vidro. E tu,
focada no centro de um instante
desfocado, imortal e perfeita,
razão profunda.
Come in una fotografia, l’istante
in cui ti distinguo dal paesaggio.
Nel mondo in assoluto silenzio,
con il solo privilegio dei tuoi gesti,
la realtà è tutta fatta di vetro. E tu,
focalizzata al centro d’un istante
sfocato, immortale e perfetta,
ragione profonda.
________________

Gerhard Richter
Betty (1977)
...

Essencialidade



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Essencialidade
Essenzialità


O ar que respiro,
Respira-me:
Metade do ar é tempo.
L’aria che respiro,
Mi respira:
Metà dell’aria è tempo.
________________

Serge Hamad
Temporal perception - 15 (2021)
...

Autobiografia


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Autobiografia
Autobiografia


Não é uma autobiografia.
Quando cito alguém, não me transformo
na pessoa que disse essas palavras
pela primeira vez. Todos os reflexos
distorcem, até o deste espelho,
sobretudo o deste espelho.
A minha história, contada por mim,
não é a minha história.

Mas é uma autobiografia.
O tempo e as tentativas de vivê-lo,
ou de narrá-lo, são irreversíveis.
Incrivelmente, dos 87 anos da tua vida,
há instantes que só eu recordo,
e, por isso, apesar de breves,
pertencem à minha vida. Além disso,
olhámo-nos nos olhos.
Non è un’autobiografia.
Quando cito qualcuno, non mi trasformo
nella persona che ha detto quelle parole
per la prima volta. Tutti i riflessi
snaturano, persino quello di questo specchio,
soprattutto quello di questo specchio.
La mia storia, raccontata da me,
non è la mia storia.

Ma è un’autobiografia.
Il tempo e i tentativi di viverlo,
o di narrarlo, sono irreversibili.
Incredibilmente, degli 87 anni della tua vita,
ci sono momenti che solo io ricordo,
e, perciò, seppur brevi,
appartengono alla mia vita. Per di più,
ci guardiamo negli occhi.
________________

René Magritte
Décalcomanie (1966)
...

As páginas dos livros…


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As páginas dos livros…
Le pagine dei libri…


As páginas dos livros colam-se aos dias, carregamos ecos.
Quando nos chamam leitores, não sabem nada sobre nós.
Suportamos segredos como falhas tectónicas, vertigens
que nos puxam. Movemo-nos como sombras no interior
desse mistério. Há uma música que nos enlouquece, que
nos ensurdece e, mesmo assim, não conseguimos parar
de segui-la. Chamam-nos leitores, mas não sabem nada
sobre nós.
Le pagine dei libri s’incollano ai giorni, ne portiamo gli echi.
Quando ci definiscono lettori, non sanno nulla di noi.
Tolleriamo segreti come faglie tettoniche, come vertigini
che ci attirano. Ci muoviamo come ombre all’interno
di questo mistero. C’è una musica che ci frastorna, che
ci stordisce e, pur tuttavia, non riusciamo a smettere
di seguirla. Ci definiscono lettori, ma non sanno nulla
di noi.
________________

Fernand Leger
La lettura (1924)
...

As estantes são ruas…


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As estantes são ruas…
Gli scaffali sono strade…


As estantes são ruas. Os livros são casas onde podemos
entrar ou que podemos imaginar a partir de fora. Há livros
  que visitámos
e há livros onde vivemos durante certas idades, conhecemos
cada uma das suas divisões, trancámo-nos por dentro.
Fomos jovens durante tantos capítulos mas, de repente,
um dia, apercebemo-nos de que restavam cada vez
  menos páginas
entre o polegar e o indicador. Então, protestámos
contra a morte, dissemos que os livros de 600 páginas
não deviam terminar nunca e, logo a seguir, identificámos
o contrassenso da frase. Essa é a desvantagem de ler livros:
prestamos demasiada atenção às extravagâncias da sintaxe.
Ainda assim, aproveitamos os lucros da nostalgia, stock
infinito de tardes de um verão antigo. Éramos tão jovens,
e alguém nos acertou com um livro. Olhámos em volta
para achar o fantasma que o atirou, está aí alguém?
Quando voltámos ao nosso campo de visão, já estávamos
num lugar com parágrafos, a dizer que as estantes são ruas
e que os livros são casas, enquanto que os outros, todos eles,
diziam que as estantes são estantes e os livros são livros.
Gli scaffali sono strade. I libri sono case in cui possiamo entrare
o che possiamo immaginare partendo da fuori. Ci sono libri che
  visitiamo
e ci sono libri dove dimoriamo per alcuni periodi, conosciamo
ciascuna delle sue sezioni, vi ci rintaniamo dentro.
Siamo stati giovani per tanti capitoli ma, d’un tratto,
un giorno, ci siamo resi conto che rimanevano sempre
  meno pagine
tra il pollice e l’indice. Allora, abbiamo protestato
contro la morte, affermato che i libri di 600 pagine non
dovrebbero finire mai e, subito dopo, ci siamo accorti del
controsenso della frase. Questo è l’inconveniente di leggere libri:
prestiamo troppa attenzione alle stravaganze della sintassi.
Malgrado ciò, godiamo dei benefici della nostalgia, scorta
infinita di pomeriggi di un’antica estate. Eravamo tanto giovani,
e qualcuno ci ha colpiti con un libro. Ci siamo guardati intorno
per scovare il fantasma che l’ha tirato, chi va là?
Quando siamo tornati al nostro campo visivo, ormai ci trovavamo
in un luogo con paragrafi, dicendo che gli scaffali sono strade
e che i libri sono case, mentre gli altri, tutti loro,
dicevano che gli scaffali sono scaffali e i libri sono libri.
________________

Georg Reimer
In biblioteca (1850-1866)
...

As águas passam…


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As águas passam…
Le acque passano…


As águas passam a velocidade
constante, o rio é um corpo. As
letras avançam pelas palavras,
avançam pelos versos, compõem
o poema. O poema é um corpo,
passa a velocidade constante.
A palavra medo não pode faltar
no poema, é levada pela corrente,
medo, palavra entre palavras,
distinta por um momento, medo,
e indistinta logo a seguir, passou
como passa tudo e, no entanto,
o seu significado permanece
ao longo dos versos seguintes,
alastra, contagia todo o poema,
ressoa, o medo ressoa até ser
inseparável das outras palavras,
até todas as palavras significarem
medo, como água ou como a força
da água, como velocidade constante.
O medo é grande e único, é um corpo.
Na margem do rio, estou sentado
num sofá. Vejo notícias na televisão,
como se assistisse à passagem do rio.
Deus, és tu que tens o telecomando?
Le acque passano a velocità
costante, il fiume è un corpo. Le
lettere avanzano tra le parole,
avanzano tra i versi, compongono
la poesia. La poesia è un corpo,
passa a velocità costante.
La parola paura non può mancare
nella poesia, è portata dalla corrente,
paura, parola tra le parole,
distinta per un attimo, paura,
e indistinta subito dopo, è passata
come tutto passa eppure
il suo significato persiste
lungo i versi seguenti,
si propaga, contagia tutta la poesia,
risuona, la paura risuona fino a rendersi
inseparabile dalle altre parole,
finché tutte le parole significano
paura, come acqua o come la forza
dell’acqua, come velocità costante.
La paura è grande e unica, è un corpo.
Sulla riva del fiume, sono seduto
su un divano. Guardo notizie alla televisione,
come se assistessi al passaggio del fiume.
Dio, sei tu che tieni il telecomando?
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Mario Schifano
Picasso in TV (1974-1975)
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Tenho mil irmãs…


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Tenho mil irmãs…
Ho mille sorelle…


Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Ho mille sorelle da amare senza parole.
Ho quella sorella che cammina rasente
ai muri e senza voce, ho quella sorella di
speranza, ho quella sorella che si stravolge il
viso quando piange. Ho sorelle ricoperte
dal marmo di statue, riflesse nell’acqua
dei laghi. Ho sorelle sparse per i
giardini. Ho mille sorelle che sono nate
prima di me affinché, quando io fossi nato,
potessi avere un letto di velluto. Ringrazio con
amore ciascuna delle mie sorelle. Sono mille
e ognuna ha un viso che invecchia. Le mie
mille sorelle sono come mille madri per me.
Gli occhi delle mie sorelle mi seguono con
benevolenza e, quando non mi capiscono,
è perché io stesso non mi capisco.
Ho mille sorelle che mi aspettano sempre, in
silenzio per sentirmi e per proteggermi
d’inverno. Ho quella sorella che è una
bimba che esce presto di casa per arrivare presto
a scuola e ho quella sorella che è una
bimba che esce presto di casa per arrivare presto
a scuola. Ho delle sorelle come musica, come
musica. Ho mille sorelle tutte in bianco.
Io sono il fratello di tutte loro. Sono il guardiano
permanente e instancabile della loro quiete.
Io devo essere felice per le mie sorelle.
Io devo essere felice per le mie sorelle.
________________

Gustav Klimt
Le fanciulle (1912-1913)
...

Olhamo-nos nos olhos pela internet


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Olhamo-nos nos olhos pela internet
Ci guardiamo negli occhi via internet


Eu transmito-te este domingo à tarde,
a voz do vizinho através da parede.

Tu transmites-me a distância que existe
depois do que consigo ver pela janela.

Durante a noite mudou a hora e, no entanto,
continuamos no tempo de ontem.

Como é raro este domingo, não podemos
garantir que amanhã seja segunda-feira.
 
O futuro perdeu-se no calendário, existe
depois do que conseguimos ver pela janela.
 
O futuro diz alguma coisa através da parede,
mas não entendemos as palavras.
 
Lavamos as mãos para evitar certas palavras.
 
E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:
tu e eu estamos juntos neste verso.
 
O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.
 
Olhamo-nos nos olhos pela internet,
estamos verdadeiramente aqui.
 
O poema é como uma casa,
e a casa protege-nos.
Io ti trasmetto, questa domenica sera,
la voce del vicino attraverso la parete.
 
Tu mi trasmetti la distanza che esiste
oltre ciò che riesco a vedere dalla finestra.
 
Durante la notte è cambiata l’ora e, tuttavia,
ci siamo fermati al tempo di ieri.
 
Dato che è una domenica anomala, non possiamo garantire che domani sia lunedì.
 
Il futuro s’è perso nel calendario, esiste
oltre ciò che riusciamo a vedere dalla finestra.
 
Il futuro dice qualcosa attraverso la parete,
ma non capiamo le parole.

Ci laviamo le mani per evitare certe parole.

E, comunque, in questo tempo anomalo, nota:
tu ed io stiamo vicini in questo verso.

La poesia è come una casa, ha pareti
e finestre, è abitata dal presente.
 
Ci guardiamo negli occhi via internet,
siamo davvero qui.
 
La poesia è come una casa,
e la casa ci protegge.
________________

August Natterer
I miei occhi al momento dell’apparizione (1911-1913)
...

Não há motivo para te importunar…


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Não há motivo para te importunar…
Non c’è motivo per disturbarti...


Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.
Non c’è motivo per disturbarti a mezzanotte,
come non c’è latte nel frigorifero né un limite
prestabilito alla solitudine domestica.
 
Tutto scompare. Nulla scompare. Tutto scompare
prima d’esser detto e tu vuoi dormire tranquilla. Hai
diritto a un sussidio di pace.
 
Se sto scrivendo una poesia, questo non è motivo per
disturbarti. Io scrivo tante poesie e tu vai al lavoro
presto di mattina.
 
Tutti quanti sanno che la notte è lunga. Non ho
il diritto di telefonarti per dirtelo, malgrado questa
ovvietà mi stia uccidendo.
 
E muoio, senza morire. Se morissi, mi chiederesti:
perché non mi hai telefonato? Se telefonassi, mi chiederesti:
sai che ore sono?
 
O non risponderesti. E io rimarrei qui. Con la notte ancora
più lunga, con l’insonnia, con le parole
che si distaccano dagli incubi.
________________

Arman
Telefono (1974)
...

Fotografia do Rio de Janeiro


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Fotografia do Rio de Janeiro
Fotografia di Rio de Janeiro


Não esperes por mim, Rio de Janeiro. Tu nunca exististe
e eu nunca existi enquanto escutávamos relatos de futebol
nas nossas próprias vozes. Contigo, ficaram suspensas
todas as avaliações que fizemos da vida, todas as decisões.
Contigo, é a fome ou a sede. As tuas mãos seguram-me
os braços, Rio de Janeiro, porque querem ter a certeza
de que estou aqui. As tuas mãos deveriam saber mais,
Rio de Janeiro. Eu sou o fantasma único da tua luz.
Eu sou o invisível invisível. E é desde esse lugar nenhum
que te peço: não esperes por mim, Rio de Janeiro,
não esperes por mim.
Non aspettarmi, Rio de Janeiro. Tu non sei mai esistita
e io mai sono esistito mentre ascoltavamo cronache di calcio
nelle nostre stesse voci. Con te, sono rimaste in sospeso
tutte le valutazioni che facevamo della vita, tutte le decisioni.
Con te, è la fame o la sete. Le tue mani mi tengono
le braccia, Rio de Janeiro, perché vogliono essere sicure
che io sia qui. Le tue mani dovrebbero sapere di più,
Rio de Janeiro. Io sono l’unico fantasma della tua luce.
Io sono l’invisibile invisibile. Ed è da questo non-luogo
che ti prego: non aspettarmi, Rio de Janeiro,
non aspettarmi.
________________

Candido Portinari
Futebol (1958)
...

A partir de Empédocles



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A partir de Empédocles
A partire da Empedocle


És tu, mas a tua alma percorre um ciclo
E é rapaz, donzela,
Planta, e ave, e peixe nas ondas,
Mas de ti nada se perde:
És sempre tu e serás tu,
E assim cumpres a mais alta lei.
Sei tu, ma la tua anima percorre un ciclo
Ed è ragazzo, fanciulla,
Pianta e uccello e pesce tra le onde,
Ma di te nulla si perde:
Sei sempre tu e sarai tu,
E così rispetti la legge suprema.
________________

Utagawa Hiroshige
Carpa (1830)
...

Fotografia de Helsínquia


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Fotografia de Helsínquia
Fotografia di Helsinki


O tempo diz-me que Helsínquia é um sonho
que nunca conseguirei concretizar.
Helsínquia é um fósforo a arder-me na ponta dos dedos.
Porque não sabia, desperdicei Helsínquia,
disse-lhe frases sem nexo e disfarcei-me de incêndio.
Há noites em que vejo a imagem desfocada de Helsínquia.
Comandado por ela, atravesso avenidas geladas
e queimo todos os objectos em que toco.
Il tempo mi dice che Helsinki è un sogno
che non riuscirò mai a realizzare.
Helsinki è un fiammifero che mi brucia in cima alle dita.
Poiché ero impreparato, sperperai Helsinki,
le dissi frasi senza nesso e mi spacciai per incendio.
Ci sono notti in cui vedo l’immagine sfocata di Helsinki.
Guidato da lei, attraverso viali gelati
e dò fuoco a tutti gli oggetti che tocco.
________________

Rembrandt
Pattinatore (1639 ca.)
...

Fotografia de Budapeste


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Fotografia de Budapeste
Fotografia di Budapest


Os monumentos de Budapeste e as suas ruas
são o mal que fiz a uma rapariga de olhos grandes.
Às vezes, lembro-me de Budapeste a propósito de
pormenores: ganchos de cabelo, caretas ao espelho.
Quando eu e Budapeste passeávamos de mão dada,
havia uma espécie de justiça na copa das árvores.
Nesse tempo, não existia memória, éramos apenas
as nossas pegadas na neve. Budapeste não tem solução.
Passarão décadas e morreremos cheios de segredos.
I monumenti di Budapest e le sue strade
sono il torto che ho fatto a una ragazza dai grandi occhi.
A volte, mi ricordo di Budapest a proposito di
dettagli: fermagli di capelli, smorfie allo specchio.
Quando io e Budapest passeggiavamo mano nella mano,
c’era una specie di giustizia sulla cima degli alberi.
Allora, non c’era alcun ricordo, eravamo soltanto
le nostre orme sulla neve. Budapest non ha soluzione.
Passeranno decenni e moriremo pieni di segreti.
________________

Oskar Zwintscher
Riflesso (1901)
...

Era isto o depois


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Era isto o depois
Era questo il dopo


E o amor transformou-se
noutra coisa com o
mesmo nome.
Era disto que falavam as
mães quando davam
conselhos às filhas e
diziam: o amor vem
depois.

Era isto o depois.
Uma ternura simples, quase
dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um
poema que se dissolve dentro
de mim e que, devagar, sem
rosto, desaparece.
E l’amore si trasformò
in un’altra cosa con lo
stesso nome.
Era di questo che parlavano le
mamme quando davano
consigli alle figlie e
dicevano: l’amore viene
dopo.

Era questo il dopo.
Un affetto semplice, quasi
dolente, molti silenzi,
tutte le ore del giorno e una
poesia che si dissolve dentro
di me e che, a poco a poco, senza
volto, scompare.
________________

Thomas Gainsborough
I coniugi Andrews (1750 ca.)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (522) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (29) Poesie inedite (331) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)