A Origem do Mundo


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Meditação sobre Ruínas (1994) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


A origem do mundo
L’origine del mondo


De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.

La mattina, strappo le erbacce dall’orto. La terra
ancora fresca, esce con le radici; e si mescola con
la nebbia dell’aurora. Il mondo, allora,
sta al contrario: il cielo, che non vedo, sta
al di sotto della terra; e le radici s’allungano
in una direzione invisibile. Dall’interno
della casa, però, un aroma di caffè mi sta
chiamando: come se qualcuno mi dicesse
che bisogna svegliarsi, una seconda volta,
perché le radici crescano dentro la
terra e la nebbia, dissipandosi, lasci vedere il blu.

________________

Joan Miró
La chiesa e il paese di Montroig (1919)

Epitáfio


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Meditação sobre Ruínas (1994) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Epitáfio
Epitaffio


Morreram da epidemia, os melhores: a uns,
levou-os a peste; a outros, a gripe a que
chamaram pneumónica; e houve os da
doença de S. Vito; os da lepra, os da
tísica, galopante ou não. Isto, quando
não davam um tiro na cabeça, não se
enforcavam num candeeiro, não se deitavam
ao rio. Houve ainda os que deixaram
de escrever; os que beberam até perder
o juízo; os que, pura e simplesmente,
desistiram sem nada explicar. Como
se a vida dependesse de tão pouco –
linhas rabiscadas em papéis baratos,
frases que podiam ou não rimar,
pensamentos...  que poderiam ter
guardado para eles próprios. No
entanto, quando os leio, percebo o seu
desespero. A beleza não aparece
todos os dias à vista do homem;
a perfeição nem sempre parece
uma coisa deste mundo. Sim:
subo as escadas até ao fim,
de onde se vê a cidade, embora
o tempo esteja de tempestade. O
que se passa, neste instante, sob
aqueles tectos? Que epidemia, mais
subtil, prende ao chão os que,
ainda há pouco, sonhavam com o voo?

Morirono durante un’epidemia, i migliori: alcuni,
se li portò la peste; altri, l’influenza che
chiamarono spagnola; e ci furono quelli col
ballo di S. Vito; quelli con la lebbra, quelli con la
tisi, galoppante o meno. Questo, quando
non si tiravano un colpo in testa, non si
appendevano a un lampione, non si gettavano
nel fiume. Ci furono anche quelli che smisero
di scrivere; quelli che si diedero al bere fino a
perdere la ragione; quelli che, in modo puro e semplice,
si arresero senza dare spiegazioni. Come
se la vita dipendesse da cose minime –
righe scarabocchiate su carta a buon mercato,
frasi che potevano rimare oppure no,
pensieri...  che avrebbero potuto
tenere per sé stessi.
Tuttavia, quando li leggo, io sento la loro
disperazione. La bellezza non compare
tutti i giorni alla vista dell’uomo;
la perfezione non sempre pare
una cosa di questo mondo. Sì:
salgo le scale fino in cima,
da dove si vede la città, malgrado
il tempo minacci temporale. Che
cosa accade, in questo istante, sotto
quei tetti? Che epidemia, più
sottile, trattiene al suolo quelli che,
ancora poco fa, sognavano di volare?

________________

Gustave Caillebotte
Giovane uomo alla finestra (1875)

Zoologia: O melro


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Um Canto na Espessura do Tempo (1992) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Zoologia: O melro
Zoologia: Il merlo


  Na gaiola, o melro não tem o bico mais amarelo
do que fora dela. Encolhe-se a um canto,
coitado, e parece envergonhado;
- embora esteja ali por culpa de quem lá o meteu
sabendo que um melro não cai do céu.

  Há pássaros assim, que qualquer um
mete numa gaiola, apesar do bico ser amarelo.
Não cantam. Não voam. Não falam.
São pássaros cegos
com a mudez dos oráculos e mudos
com a lucidez dos profetas.

  Perfeitamente por acaso, abri-lhe
a gaiola. E ele deixou-se estar, sem sair
nem entrar.

  In gabbia, il merlo non ha il becco più giallo
di quando è fuori. Si rifugia in un canto,
poverino, e pare che si vergogni;
- benché si trovi lì per colpa di chi ce l’ha messo
sapendo che un merlo non cade giù dal cielo.

  Ci son uccelli così, che qualcuno
mette in gabbia, malgrado il becco giallo.
Non cantano. Non volano. Non parlano.
Sono uccelli ciechi
col mutismo degli oracoli e muti
con la lucidità dei profeti.

  Davvero per puro caso, gli ho aperto
la gabbia. E lui è rimasto lì, senza uscire
né entrare.

________________

Mario Tozzi
Fanciulla con merlo (1968)

Chuva


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Um Canto na Espessura do Tempo (1992) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Chuva
Pioggia


Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
“Que Inverno!”; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

Piove come sempre. E,
ogni volta che piove,
le persone cercano riparo
(quelle che non stavano in
attesa che piovesse);
o aprono, semplicemente,
il parapioggia - di
preferenza con chiusura
automatica. Perché, quando
piove, tutti dobbiamo
fare qualcosa: perfino
noi, che stiamo dentro
casa. Alcuni, vanno alla
finestra, commentando:
“Che inverno!”; altri
si siedono, con un foglio
davanti: e scrivono
una poesia, come questa.

________________

Utagawa Hiroshige
Il ponte di Shin Ohashi sotto la pioggia (1857)

Zoologia: O gato


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Um Canto na Espessura do Tempo (1992) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Zoologia: O gato
Zoologia: Il gatto


Um gato, em casa, sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

Un gatto, solo, in casa, sale
sulla finestra perché, dalla via, lo
vedano,

Il sole batte sui vetri e
riscalda il gatto che, immobile,
sembra un oggetto.

Resta così perché lo
invidino - indifferente
pur se lo chiamano.

Per non so qual privilegio,
i gatti conoscono
l’eternità.

________________

Studio di gatto,
pittura tradizionale cinese gongbi

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (17) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)