Crepúsculo


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Crepúsculo
Crepuscolo


É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
È quando uno specchio, nella stanza,
s’annoia;
Quando la notte si separa
dal tendaggio;
Quando la carne ha l’amaro
della saliva,
e la saliva sa di carne
imputridita;
Quando la forza di volontà
resuscita;
Quando il piede sulla scarpa
s’equilibra...
E quando alle sette della sera
muore il giorno
ecco che dentro le nostre anime
s’illumina,
di luce livida, la parola
addio.
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Angelo Morbelli
Parlatorio dell'ospizio (1891)
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III - o sol é um clarim...


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III - o sol é um clarim...
III - il sole è un clarino...


o sol é um clarim
um clarão amarelo
derretido e sem matéria
e tudo que sua boca beija brilha
il sole è un clarino
un giallo chiarore
liquefatto e senza materia
e tutto ciò che la sua bocca bacia brilla
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Nicolas de Staël
Il sole (1952)
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As últimas vontades


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As últimas vontades
Le ultime volontà


Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.

Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se, fechados,
sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.

Deixa ficar a flor.
Lascia stare il fiore,
la morte nel cassetto,
il tempo dentro il gradino.

Tu conosci il gradino:
il settimo gradino
dopo il ballatoio;
cigolante al passaggio;
quel che fu nascondiglio
del mazzo di sigarette
fumato di nascosto...

Lascia stare il fiore.

E non ti lamentare. Lascia
il tempo dentro il gradino,
la morte nel cassetto.

Tu conosci il cassetto:
il primo da sinistra,
che è rimasto chiuso.
Chi ha buttato la chiave
fuori dalla finestra?
Nella battaglia d’odio,
si distruggano, chiusi,
senza tregue, i ritratti!

Lascia stare il fiore.

Il fiore? Non lo conosci.
Lo so. Neanch’io. Nessuno.

Lascia stare il fiore.

Non dire nulla. Ascolta.
Non senti il gradino?

Chi sale ora la scala?
Come si muove piano!
Talmente piano che sale...

Non dire nulla. Ascolta:
è di certo qualcuno,
qualcuno che porta la chiave.

Lascia stare il fiore.
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Robert Mapplethorpe
Fiori (1988)
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Alba


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Alba
Alba


Com grinaldas de lodo sobre a testa,
presos os pés em turbilhões de limos,
- assim a madrugada nos desperta
e após a preia-mar nós emergimos.

Lambe-me o rosto a fimbria do lençol,
amarrotada, poluida espuma…
Sobre a salsugem, uma angustia mole,
que o pensamento arruma e desarruma.

Por fim derruba o muro dos enganos,
e ante nós dois derrama esta pergunta:
- De que infernos vibrantes nos soltamos,
sem que o céu compareça ou nos acuda?
Con ghirlande di fango sulla fronte
e i piedi avvinti da vortici di limo,
- così la luce dell’alba ci ridesta
e dopo l’alta marea noi riemergiamo.

L’orlo del lenzuolo mi lambisce il volto,
come sudicia, corrotta spuma…
Sopra la salsedine, un vago tormento,
che il pensiero scompiglia e poi sistema.

Infine abbatte il muro degli inganni,
e a noi due pone questa domanda:
- A che frementi inferni siam sfuggiti,
senza intervento del cielo e senza aiuti?
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Frederic Edwin Church
Levar del sole (1847)
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II - um lago sereno e raso...


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II - um lago sereno e raso...
II - un lago sereno e liscio...


um lago sereno e raso me observa
o tempo é uma grande borboleta azul
pousada sobre o verde das vitórias-régias
un lago sereno e liscio mi osserva
il tempo è una grande farfalla blu
posata sopra il verde della victoria regia
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Stanley William Hayter
Ninfee (1970)
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