Aeroporto


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Aeroporto
Aeroporto


É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.
È il fatidico mese di marzo, mi trovo
al piano superiore e contemplo il vuoto.
Kok Nam, il fotografo, abbassa la Nikon
e mi guarda, obliquamente, negli occhi:
Non tornerai più? Gli dico soltanto di no.

Non tornerò, ma starò sempre
da qualche parte, in piccoli dettagli illeggibili,
scevro da tutte le futurologie indiscrete,
preservato soltanto nell’unicità della memoria
privata. Non voglio ricordare nulla,

m’importa solamente di scordare e scordare
l’impossibile da scordare. Non si
dimentica mai, tutto si ricorda nascostamente.
Si demolisce la statua dell’Ammiraglio,
pezzo a pezzo, mentre il chilometro cento resiste

orgoglioso sul culmine della palma schiva.
Sezionato, l’ Ammiraglio dorme nel museo,
il sonno di bronzo nella morte anonima delle statue
inutili. Smantellato, io non sopravviverò
che nel precario registro delle parole.
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Giulio d'Anna
Aeroporto e aerei in picchiata (1931)
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A casa de areia


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A casa de areia
La casa di sabbia


Face ao mar, orgulhosa no topo do areal,
só madeira e zinco sobre pilares de cimento
ao sabor dos quatro ventos. O quintal
das traseiras sempre uma festa, frango
no churrasco, alegria nos copos. Depois

a Isilda casaria com o Freitas,
a Ermelinda ia ficar para tia
e o Horácio dava em droga.
O Neca, o Tino e o Mando foram
à vida, cada qual para seu lado.

Na velha casa virada à baía,
além do ranger da madeira
batida pelo vento e a areia
apenas ficaram a avó Carminda
e a velha cadela "Deixa-Falar".
Davanti al mare, orgogliosa a picco sulla spiaggia,
solo legno e zinco su pilastri di cemento
al capriccio dei quattro venti. Il cortile
sul retro sempre una festa, pollo
alla griglia, allegria nei bicchieri. Dopo

l’Isilda si sposerà con il Freitas,
l’Ermelinda andrà a stare dalla zia
e l’Orazio si darà alla droga.
Il Neca, il Tino e il Mando se ne andarono
per la vita, ciascuno verso il suo destino.

Nella vecchia casa rivolta alla baia,
oltre al cigolio del legno
battuto dal vento e dalla sabbia
rimasero soltanto nonna Carminda
e la vecchia cagnetta "Lasciami Dire".
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Paul Signac
St.-Briac. La Garde Guérin (1890)
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Os mortos vão à sua vida...



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Os mortos vão à sua vida...
I morti vanno incontro alla loro vita...


Os mortos vão à sua vida,
Os vivos vão à sua morte.
A única súplica possível
Aos nossos mortos é que das suas preces
Não nasçam mastins, legiões,
A aziaga esponja, os demónios.
I morti vanno incontro alla loro vita,
I vivi vanno incontro alla loro morte.
L’unica supplica possibile
Ai nostri morti è che dalle loro preci
Non nascano mastini, legioni,
Né l'inacidita spugna né i demoni.
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Franco Gentilini
Trionfo della Morte (1944)
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Mirante


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Mirante
Belvedere


De leve, irreal e fantástica,
a névoa poisa nos teus ombros
e o vento vem devagarinho
agitar-te a rebeldia dos cabelos.
Um rio de cinza corre brando

pela pedra.
  Vacilantes
esvoaçam pálidas gaivotas
longe.
  Vozes suspendem-se

na distância onde claros
barcos oscilam de perfil.
Nos teus olhos incomparáveis
arde uma alta febre.
    Eu não

posso fugir-te:
lentamente desces, instalas-te
no meu sangue.
  Não tenho
rosto e esqueço o meu nome.
Leggera, irreale e fantastica,
la bruma ti si posa sulle spalle
e il vento giunge lemme lemme
ad agitare i tuoi capelli ribelli.
Un fiume color cenere scorre sereno

fra le rocce.
  Ondeggianti
aleggiano pallidi gabbiani
distanti.
  Ci son voci sospese

sulla distanza ove nitide
barche dondolano di profilo.
Nei tuoi occhi impareggiabili
arde una febbre alta.
    Io non

ti posso sfuggire:
scendi pian piano, t’installi
nel mio sangue.
  Io non ho
volto ed il mio nome scordo.
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Nicolas de Staël
Gabbiani (1955)
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Derrota


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Derrota
Disfatta


Mágoa índica, doída saudade ao sol-
poente de praias na distância, travado
na garganta o soluço à luz
crepuscular que persiste e teima
não tornar-se olvido. Sal saudade,

padrão, dura lembrança erguida
contra obturações e fissuras do tempo,
assim principia uma jornada
de longas tribulações: o que fomos
jamais seremos, evocativas sombras

que somos de grandeza envilecida,
voz asfixiada no sono entorpecente
das consciências sem remorso. Saudade,
corpos de morena canela na areia
alongados. Travo a terebintina,

doirado, sumarento mel
de dulcíssimos frutos, fermento
de orientes perdidos na rota inversa
de argonautas privados de deuses e mitos.
Cansados de tantas pátrias, de pátrias

rejeitados, na pátria indesejados,
silentes volvemos, vultos espectrais
no mar lento de negrume e escombros,
ao cais cinzento do destino original,
às exéquias do sonho em campa anónima.

Por mortalha o precário resguardo
deste discurso penosamente vencido
nas longas diuturnidades da insónia.
Ainda que cantar seja seu modo,
não canta, chora meu canto.
Mestizia indiana, dolente rimpianto al calar
del sole di spiagge assai distanti, bloccato
in gola il singhiozzo nella luce
crepusculare che perdura e insiste
a non farsi oblio. Sale del rimpianto,

cippo, duro ricordo innalzato
contro riparazioni e fessure del tempo,
così comincia un percorso
di lunghi tormenti: quel che siamo stati
non saremo mai più, ombre evocative

che siamo, a grandezza sminuita,
voce soffocata nel suono soporifero
delle coscienze senza rimorso. Rimpianto,
corpi di brunita cannella allungati
sulla sabbia. Sentore di trementina,

dorato, succulento miele
di dolcissimi frutti, germe
di orienti perduti lungo la rotta contraria
di argonauti deprivati di dei e miti.
Logorati da tante patrie, da patrie

ripudiati, in patria indesiderati,
in silenzio torniamo, visi spettrali
nel pigro mare di ruderi e tenebre,
al grigio approdo della meta iniziale,
alle esequie del sogno su una fossa anonima.

Come sudario il precario ricetto
di questo discorso penosamente vinto
nel lungo perpetuarsi dell’insonnia.
Benché cantare sia la sua norma,
non canta, piange il mio canto.
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Emiliano di Cavalcanti
Due donne (1935)
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