A minha roupa pesa ainda…



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A minha roupa pesa ainda…
Impregna ancora i miei vestiti…


A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro.
O odor das orquídeas não é o mesmo,
Morreram com a extinção do fogo.
Tudo é cinza, espaço em nunca convertido,
Tudo é um apenas olhar do corpo sobre o ido
Fulgor das fracas palavras que ficaram.
Hoje nada parece suster a respiração
Do teu fôlego rente à pele
Dos dias. Tudo é, no voo do sol da tarde,
Apenas um ardor desfalecido.
Impregna ancora i miei vestiti il tuo profumo.
Le orchidee non hanno più lo stesso odore,
Sono morte con l’estinguersi del fuoco.
Tutto è cenere, spazio mai modificato,
Tutto non è che uno sguardo del corpo sul perduto
Fulgore delle fiacche parole rimaste.
Oggi nulla sembra alimentare il soffio
Del tuo respiro vicino alla pelle
Dei giorni. Tutto, nel volo del sole calante,
Non è che un ardore estenuato.
________________

Georgia O'Keeffe
An Orchid (1976)
...

Contra a Esperança


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Contra a Esperança
Contro la speranza


É preciso esperar contra a esperança.
Esperar, amar, criar
contra a esperança
e depois desesperar a esperança
mas esperar,
enquanto um fio de água, um remo,
peixes
existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater a máquina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.

É preciso esperar
por um pouco de vento,
um toque de manhãs.
E não se espera muito.
Só um curto-circuito
na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas. A esperança,
cachorro
a correr sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite em vão esconde.

O universo é um telhado
com sua calha tão baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.

É preciso esperar contra a esperança
e ser a mão pousada
no leme de sua lança.

E o peito da esperança
é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
É preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.

Um balde a mais
na esperança.

Um balde a mais
contra a esperança
e sobre nós.
Occorre sperare contra la speranza.
Sperare, amare, creare
contro la speranza
e poi affliggersi per la speranza
ma sperare,
fintanto che un filo d’acqua, un remo,
dei pesci
esistano e sopravvivano
in mezzo alle baruffe;
fintanto che batta la macchina per cucire
e il giorno vada a finire
come un nuovo gilè.

Occorre sperare
un soffio di vento,
un accenno di mattino.
E non è sperare molto.
Soltanto un cortocircuito
nella memoria. I capelli,
come nidi di rondini
e piogge. La speranza,
cane
che scorrazza in campagna
e un leprotto
che la notte inutilmente nasconde.

L’universo è come un tetto
con la sua gronda, giù in basso
e le stelle, sciame
di api sulla cima.

Occorre sperare contro la speranza
ed essere la mano che afferra
il timone della sua lancia.

E il cuore della speranza
è non arrivare;
il suo volto s’accresce sempre.
Occorre affliggersi
per la speranza
come per un secchio nel mare.

Un secchio di troppo
nella speranza.

Un secchio di troppo
contro la speranza
e al di sopra di noi.
________________

Agustín Lazo Adalid
La sarta (1942-1945)
...

Claridade


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Claridade
Chiarezza


O barulho de existir:
um cão
dentro de mim.

Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.
Il rumore di vivere:
un cane
dentro di me.

Attraverso
come fosse un patio
il rumore di vivere.
________________

Goya
Cane interrato nella sabbia (1820-1821)
...

Prólogo


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Prólogo
Prologo


Nossos dramas quotidianos
não contam
na milícia dos dias.

Iguais às nuvens,
as noites vêm e vão
num redondel ou tubo.
E os reveses são núcleo.
Qualquer gota
nos filtra.
O extravio
é nossa identidade.
Nosso número.

Tudo sucede
a tudo
e nós, humanos,
não nos sucedemos.
Nos sucedem.
E o sangue
é a cal
do sangue,
sua província.

Só vinga
o que adubamos
com folhas de abandono.

Tábuas de rebelião.
Tábuas de dor,
nós somos.
Tábuas, tábuas
do universo inviável.

Tudo sucede
a tudo.
Sem vestígio.

Insubmissos,
nosso amor remonta
aos astros.
E é o desequilíbrio.
I nostri drammi giornalieri
non rientrano
nella schiera dei giorni.

Simili alle nuvole,
le notti sono un viavai
in un'arena o in un tubo.
E le avversità sono il fulcro.
Ogni goccia
ci s’infiltra.
La perdita
é la nostra identità.
La nostra cifra.

Tutto sussegue
a tutto
e noi, umani,
non ci susseguiamo.
Ci susseguono.
E il sangue
è la calce
del sangue,
la sua contrada.

Cresce soltanto
ciò che fertilizziamo
con foglie d’abbandono.

Tavole di rivolta.
Tavole di pena,
noi siamo.
Tavole, tavole
nell'universo inaccessibile.

Tutto sussegue
a tutto.
Senza lasciar traccia.

Indomabili,
il nostro amore s’eleva
verso le stelle.
Ed è instabilità.
________________

Arnulf Rainer
Maschera (2002)
...

O que é do homem


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O que é do homem
Ciò che è dell'uomo


O que é do homem
ninguém lhe tira.

O rosto gume
dentro do gesto.
Ninguém lhe tira.

O gesto exato
dentro da morte.
Ninguém lhe tira.

A morte sempre
na noite funda
e o viço aceso
de sua luta.
Ciò che è dell'uomo
non glielo toglie nessuno.

Il piglio pungente
dentro il gesto.
Non glielo toglie nessuno.

Il gesto preciso
dentro la morte.
Non glielo toglie nessuno.

La morte sempre
nella notte cupa
e la viva energia
della sua lotta.
________________

Mario Sironi
Allegoria del lavoro (1933)
...

O campeador e o vento


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O campeador e o vento
Il campeador e il vento


  (abertura)

Vem o vento,
vai silvando.
O vento é quando?

É depois de ter amado.

Vento cervo,
puro vento,
se mistura
com os cedros,
ultrapassa o mirante,
se mistura
a outro tempo.

Vento quando?

É depois de ter lutado.
  (apertura)

Viene il vento,
sibilando.
Il vento è quando?

È dopo aver amato.

Vento cervo,
vento puro,
si mistura
con i cedri,
oltrepassa il belvedere,
si mistura
a un altro tempo.

Vento quando?

È dopo aver lottato.
________________

Wols
Il mulino (1951)
...

Lunalva


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Lunalva
Lunalva


Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente

Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada

Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas

Não
Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano

O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue
Se volete sapere chi sono
- Non so chi sono
So solo che in me
L'ombra e la luce
Sono presenze
Che si cercano e si amano
Follemente

Se volete conoscere il mio destino
- Non conosco il mio destino
- Non conosco il mio nome
Conosco solo quella sete
Immensa sete
Che ancora non è stata saziata

Se volete sapere da dove vengo
- Non so da dove vengo
Forse vengo dal vento
Dal deserto
Dal mare
O dalle profondità dell’alba

No
Non amatemi così avventatamente
“Non capitemi così avventatamente"
Non reputatemi tanto facile
Per favore
Non reputatemi tanto meschino
Tanto ordinario

Il pane che reco con me
- Non è pane
È fuoco
Il vino che reco con me
- Non è vino
È sangue
Ed io vi assicuro
- Tutti dovranno bere
Dal Fuoco e dal Sangue
________________

Giovanni Giacometti
Pane (1908)
...

Indagações no exílio



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Indagações no exílio
Interrogativi in esilio


Velha proa harpa dos ventos
que mares tangem tuas cordas

O mar antigo contido
numa estrofe de Camões?

O mar dos mercadores
mar negreiro
cavado nos porões?

O mar das searas concretas
mar das ceifeiras
mar dos poetas
o mais vasto mar da marinhagem
que nada teve nunca?

Velha proa harpa dos ventos
Vecchia prora, arpa dei venti
che mari fan vibrare le tue corde?

L’antico mare racchiuso
in una strofa di Camões?

Il mare dei mercanti
mare negriero
nelle stive annidato?

Il mare dei raccolti tangibili
mare di falciatrici
mare dei poeti
il più vasto mare di marineria
che mai sia esistito?

Vecchia prora, arpa dei venti
________________

Caspar David Friedrich
Nave nell’Oceano Artico (1798)
...

Livro da Terra e dos homens - 6


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Livro da Terra e dos homens - 6
Libro della Terra e degli uomini - 6


Os homens eram sombrios,
esfinges de solidão.

Os homens eram sombrios,
quiseram tecer de sonhos
a água verde dos rios.

Os homens eram amargos,
quiseram compor o cisne
nas águas verdes dos lagos.

Os homens eram ardentes
como tochas de amaranto;
sobre o rosto do poente
deixaram rosas de pranto.

Os homens eram calados,
torres de vazio.

Eram terríveis, terríveis
contra o céu de esquecimento;
lançavam gumes de fogo
e adormeciam no vento.

Os homens eram de vento
(de um vento predestinado);
braços de ferro no tempo,
entre o presente e o passado.

Os homens eram profundos
na superfície das cousas
e ali ficavam no mundo
dos rosalábios e rosas.

Os homens eram ferozes
como estrelas de ambição;
mas no tempo-primavera,
se primavera chegasse,
eram brandos como espuma,
eram virgens como espada;
eram suaves, suaves
como aves de abandono.

Os homens eram de estrela,
soprando sobre o canal;
não era estrela de noite,
mas estrela de metal.

Os homens eram de estrela
e não podiam sustê-la.

Os homens eram de treva,
fizeram-se escravos dela.

Os homens eram remotos
no grande túnel de pedra.

Nem alga, nem alfazema,
nem junco, nem girassol,

floração ali não medra,
longe da terra do sol.

Floração ali não medra;
tudo o que nasce é de pedra.

O homem nasceu do vento
mas sepultou-se na pedra.

O tempo nasceu do homem
mas o homem não é pedra.

O tempo formou-se pedra
na eternidade de pedra.

Um sol compreendeu o homem;
era fogoso e de pedra.

Menino não como os outros,
menino feito de pedra.

Braços, só braços e mãos
na madrugada de pedra.

Os homem donde vieram,
se o seu destino é de pedra?

Que procuravam os homens
na eternidade de pedra?

Eram hálitos de aurora,
luz florescendo caverna?

Eram só pedra.

Talvez fonte, vento vento,
folhagem sobre montanha,
cintilações, pensamento?

Eram só pedra.

Talvez crianças relâmpagos,
Paredes de som, cantigas?

Eram só pedra.

Rostos ocultos no sono,
barcos de ânsia, velame?

Eram só pedra.

Talvez carícia, sossego,
desejo de despertar?

Eram só pedra de pedra.
Os deuses eram de pedra,
os homens eram de pedra
na eternidade da pedra.

Pedra de aurora mas pedra.
os homens eram pedras.

Lábios de pedra mas pedra
os homens eram pedras.

Ventre de pedra mas pedra,
os homens eram pedras.

Noite de pedra mas pedra,
os homens eram pedras,
os homens eram pedras,
os homens eram as pedras.

Eram as pedras, as pedras,
eram as pedras.
Gli uomini erano cupi,
sfingi di solitudine.

Gli uomini erano cupi,
volevano intessere di sogni
l’acqua verde dei fiumi.

Gli uomini erano afflitti,
volevano dar forma al cigno
sulle verdi acque dei laghi.

Gli uomini erano ardenti
come torce d’amaranto;
davanti al cielo di ponente
lasciarono rose di pianto.

Gli uomini erano silenti,
torri di vuoto.

Erano terribili, terribili
davanti al cielo dell’oblio;
lanciavano lame di fuoco
e s’assopivano nel vento.

Gli uomini erano di vento
(di un vento predestinato);
braccia di ferro nel tempo,
tra il presente e il passato.

Gli uomini erano profondi
sulla superficie delle cose
e lì s’adagiavano nel mondo
delle centofoglie e delle rose.

Gli uomini erano feroci
come stelle ambiziose;
ma nell’aria di primavera,
se mai primavera arrivasse,
erano docili come schiuma,
erano vergini come spade;
erano dolci, dolci
come uccelli abbandonati.

Gli uomini erano come stelle,
che spirano sopra il canale;
non erano stelle notturne,
ma stelle di metallo.

Gli uomini erano come stelle
ma non potevano sostenerle.

Gli uomini eran fatti di tenebra,
e di essa divennero schiavi.

Gli uomini erano isolati
nel grande tunnel di pietra.

Né alga, né lavanda,
né giunco, né girasole,

lì non v’è flora che prosperi
lontano dalla terra del sole.

Lì non v’è flora che prosperi;
tutto ciò che nasce è di pietra.

L’uomo è nato dal vento
ma s’è sepolto nella pietra.

Il tempo è nato dall’uomo
ma l’uomo non è di pietra.

Il tempo s’è plasmato sulla pietra
nell’eternità della pietra.

Un sole comprese l’uomo;
era focoso e di pietra.

Bambino diverso dagli altri,
bambino fatto di pietra.

Braccia, solo braccia e mani
nell’alba di pietra.

Da dove son giunti gli uomini,
se il loro destino è di pietra?

Che cosa cercavano gli uomini
nell’eternità della pietra?

Erano respiri d’aurora,
luce che infiora la caverna?

Non erano altro che pietra.

Forse sorgente, vento vento,
vegetazione di montagna,
fulgori, pensiero?

Non erano altro che pietra.

Forse fanciulli fulmine,
Muri di suono, cantiche?

Non erano altro che pietra.

Volti celati nel sonno,
barche d'ansia, velame?

Non erano altro che pietra.

Forse carezza, quiete,
desiderio di destarsi?

Erano solo pietra di pietra.
Gli dei erano di pietra,
gli uomini erano di pietra
nell’eternità della pietra.

Pietra d’aurora ma pietra.
gli uomini erano pietre.

Labbra di pietra ma pietra
gli uomini erano pietre.

Ventre di pietra ma pietra,
gli uomini erano pietre.

Notte di pietra ma pietra,
gli uomini erano pietre,
gli uomini erano pietre,
gli uomini erano le pietre.

Erano le pietre, le pietre,
erano le pietre.
________________

Raffigurazione di mano (Paleolitico)
Grotta di Pech-Merle (Francia)
...

Inscrição


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Inscrição
Iscrizione


Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.

Carregai-me, barca
E ainda canto.
Qui mi trovo,
aperto è il portale.
Non mi dilungherò con l’amore e il trasporto.
L’obolo è pagato, riscattato il giorno
E pronta la barca, col suo amaro nocchiero.

Agli dei nulla oso chiedere,
né compro,
se non una pausa
per il mio stesso stupore.

Portami, barca
Mentre io ancora canto.
________________

Gustave Doré
Caronte sull'Acheronte (1882-1883)
...

Estão enferrujados


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Estão enferrujados
Si sono arrugginiti


Estão enferrujados
o ferro e a solidão,
o jugo com sua casa,
o medo e a noite vasta,
porém o sonho não.

Estão enferrujadas
a morte e a sua aljava,
a faca sob a toca,
porém, o braço não:
quando se ergue, corta.
Si sono arrugginiti
il ferro e la solitudine,
il giogo con la sua casa,
la paura e la vasta notte,
ma non il sogno, no.

Si sono arrugginiti
la morte e la faretra,
la lama sotto la tana,
ma non il braccio, no:
quando si alza, taglia.
________________

Roberta Ubaldi
Teschio (2012)
...

Deus é um verso estreito


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Deus é um verso estreito
Dio è un verso limitato


Deus estava nas águas
como um feto no ventre da mulher.
Mas não dependia das águas,
nem da mulher.
Deus voltava à infância
que ao teve.
Deus voltava a terra.
E a terra de Deus
é em si mesmo.
Deus está dormindo, Silbion.
Como é formoso Deus!
Deus está sozinho, Silbion.
Como é duro ser Deus!
Deus está cansado, Silbion.
Como está errante Deus!
Quem poderá despertá-lo?
O vento? Tu? Ninguém?
Quem poderá compreendê-lo, Silbion?
Quem? Os ventos? Ninguém.
Os ventos não o compreendem;
levavam cisnes nos ombros.
As águas não o compreendem;
eram tão tristes as águas!
As noites não o compreendem;
levavam cisnes nos ombros.
Os anjos não o compreendem.
Só sabem dizer “Senhor, Senhor!”
e calar as palavras.
Dio stava nelle acque
come un feto nel ventre della donna.
Ma non dipendeva dalle acque,
né dalla donna.
Dio tornava all’infanzia
che aveva vissuto.
Dio tornava alla terra.
E la terra di Dio
sta dentro lui stesso.
Dio sta dormendo, Silbion.
Com’è bello Dio!
Dio sta solo, Silbion.
Com’è duro esser Dio!
Dio è stanco, Silbion.
Com’è imprevedibile Dio!
Chi lo potrà destare?
Il vento? Tu? Nessuno?
Chi potrà comprenderlo, Silbion?
Chi? I venti? Nessuno.
I venti non lo comprendono;
trasportavano cigni sulle spalle.
Le acque non lo comprendono;
erano così tristi le acque!
Le notti non lo comprendono;
trasportavano cigni sulle spalle.
Gli angeli non lo comprendono.
Sanno dire soltanto “Signore, Signore!”
e restare in silenzio.
________________

Stefano D'Antonio Di Vanni
Angelo in preghiera (1465 ca.)
...

Comparecimento


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Comparecimento
Comparsa


Compareço
do leito ou da pedra,
com pólvora em todos os sentidos.

Compareço:
gatilho na ponta dos gestos,
em fogo e bala, à espreita.

Compareço e me vou.
Aceitei por condição.
Não oculto
as linhas de loucura
que me lutam.
Rebento em pleno vôo.

Aqui estou
por própria culpa.
Possuo o desespero
residente
naquilo que construo.

Não recuo
dos deuses. Enfrento
o seu semblante satisfeito,
rejeito
a luz e o erro,
com a mesma carnação
e o mesmo jeito.

E se a recusa vier de vossa parte,
vivo em metade,
vivo separado.
Não pretendo ser salvo.
Vivo explosivo, áspero,
mas vivo.

E sou meu próprio alvo.
Compaio
dal letto o dal sasso,
e nei sensi ho polvere da sparo.

Compaio:
grilletto in cima a ogni gesto,
fuoco e pallottola, in agguato.

Compaio e vado via.
Ho accettato la situazione.
Non nascondo
i segni di follia
in lotta dentro di me.
In pieno volo esplodo.

Sto qui
per colpa mia.
Mi abita il tormento
che risiede
in quello che realizzo.

Non arretro
davanti agli dei. Affronto
il loro sguardo soddisfatto,
rifiuto
la luce e l’errore,
con lo stesso viso aperto
e con lo stesso decoro.

E se il rifiuto viene da parte vostra,
vivo a metà,
vivo separato.
Non chiedo d'essere salvato.
Vivo in modo esplosivo, aspro,
ma vivo.

E sono di me stesso il bersaglio.
________________

George Grosz
Esplosione (1917)
...

Talvez


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A casa dos arreios (1973) »»
 
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Talvez
Forse


Talvez o universo não exista.
Seja apenas a sombra fugitiva
da idéia de um universo; ou talvez
seja a perdida infância, o clarão
de alguma inteligência subitânea.
Sim, talvez não exista. Seja um medo
de haver mais testemunhos, relações
afetos exteriores ou temidos,
ou mero espectador de algum incêndio
havido e não sabido ou antecipado
para que reste cinza, cinza e vão.

Ou nada reste de um sistema,
uma harmonia cósmica, o pavor
de alguém nos assistir, estando ausente.
Não existe universo, nem o dia
ou a noite. Nós inventamos tudo,
inventamos a nós mesmos
e esquecemos a fórmula, o entrecho,
inventando o esquecimento.

Ou é invenção o pensamento,
uma argúcia engendrada pelos deuses
de se engendrarem juntos, nos pensando.
Ou o universo seja apenas quando
cessarmos de existir, desentocando
o mistério maior, aquele plasma
que rege a potestade, ou forma insone
de se viver, morrido, com o corpo
exilado num outro. O universo
se compõe, se dormimos. Ele existe.
Sobrevive tangível quando amamos
ou tontos despertamos. O universo
perturba, ferve nos corrói. E assoma.
Continuará depois que sepultarmos
essa comunicação, toda a vontade
e a matéria restrita ou desatenta.

E talvez o universo nos inventa.
Forse l’universo non esiste.
Forse è solo l’ombra fuggitiva
dell’idea di un universo; o forse
è l’infanzia perduta, il lampo
di qualche inattesa intelligenza.
Sì, forse non esiste. Che sia il timore
di trovare più testimonianze, relazioni
affettive esterne o sospette,
o d’essere semplice spettatore d’un incendio
avvenuto e non risaputo o previsto
sicché non resti che cenere, cenere e basta.

O non resti nulla di un sistema,
di un’armonia cosmica, il dubbio
che qualcuno ci osservi, restando invisibile.
Non esiste universo, né il giorno
o la notte. Noi abbiamo inventato tutto,
abbiamo inventato noi stessi
e abbiamo scordato la formula, il metodo,
inventando l’oblio.

O è invenzione il pensiero,
un’astuzia escogitata dagli dei
per generare se stessi insieme, pensando a noi.
Oppure l’universo esisterà solo quando
cesseremo d’esistere, portando alla luce
il più grande dei misteri, quel plasma
che detiene il potere, ossia forma insonne
di vivere, da morti, con il corpo
esiliato in un altro. L'universo
prende forma, se dormiamo. Esiste.
Sopravvive tangibile quando amiamo
o intontiti ci svegliamo. L’universo
sconvolge, ribolle, ci consuma. Ed emerge.
Continuerà dopo che avremo seppellito
questa informazione, tutta la volontà
e la materia limitata o disattenta.

E forse è l’universo che c’inventa.
________________

Domenico Ghirlandaio
San Girolamo nello studio (1480)
...

É preciso partir da manhã…


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É preciso partir da manhã…
Bisogna partir di mattina…


É preciso partir da manhã
para o escuro de Deus.
Das coisas
para as coisas.

Pisar na dor
para o equilíbrio
da terra
e os frutos.

É preciso amar sempre
e de novo.
Que os pensamentos voam raso,
embaixo das estrelas.

Não há religião ou ambição
nas profundezas.
Quem ama
corre o risco.
Bisogna partir di mattina
verso l’oscurità di Dio.
Dalle cose
per le cose.

Bisogna esperire il dolore
per l’equilibrio
della terra
e dei suoi frutti.

Bisogna amare sempre
e di nuovo.
Ché i pensieri volano bassi,
al di sotto delle stelle.

Non v’è religione né ambizione
nelle profondità.
Chi ama
corre il rischio.
________________

Georgia O'Keeffe
Stella della sera (1917)
...

Poema da devastação


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Poema da devastação
Poesia della devastazione


Há uma devastação
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.

Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços
resolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.

Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão
enquanto nós vivermos.
Esiste una devastazione
nelle cose e nelle creature,
come se un vulcano
alzasse le sopracciglia
e lì, sopra quel suolo,
si adagiassero al completo
gli affanni, le solitudini,
i passati tormenti
e tutta la condizione
di uomo senza limiti,
così breve avventura,
massima punizione.

Esiste una devastazione
nell’acqua e nelle creature;
i pesci, con la loro energia,
scompaiono nell'ombelico
di questo vulcano squamoso.

Esiste una devastazione
nelle piante e nelle creature;
l'uomo chinato
con la palpebra sopra il ginocchio.
Il magma esalerà
finché avremo vita.
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Giuseppe Sciuti
Eruzione dell'Etna (1852)
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