Maho Kinoshita


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Maho Kinoshita
Maho Kinoshita


Sim, traduzir livros é carregar uma taça de água.
Seguras essa taça com as duas mãos, superfície rasa
de água, reflete o teu rosto e o céu. Como são belas
as cores refletidas nessa água imóvel. As tuas mãos
não tremem, sabes que qualquer solavanco mínimo
fará verter gotas desse líquido precioso, mas sabes
também que tens um longo caminho. Transportas
água e vogais, som e sentido, aprecias cada momento
de cada palavra, água, mas há pedras no alfabeto,
veredas onde não passa ninguém há muito tempo,
e, por isso, escorrem gotas pelas paredes da taça,
caem no chão, afundam-se na terra do caminho.
Seguras a taça com as duas mãos, diante do peito,
e, quando chove, quando os céus decidem chover,
essas gotas atravessam linhas secretas no ar e voltam
a encher a taça. Escorre-te água pelos cabelos, levas
a roupa molhada, colada ao corpo, és um corpo
no meio da tempestade, conheces o teu trabalho.
Sim, traduzir livros é carregar uma taça de água
através de fronteiras, através de montanhas,
através das palavras que a tua mãe te ensinou
e das palavras que a minha mãe me ensinou.
Sabes que perdes e ganhas durante o caminho,
sabes que, no fim, havemos de encontrar-nos.
Ficaremos em silêncio. E, com olhos sobrepostos,
veremos a mesma coisa.
Sì, tradurre libri è trasportare un bicchier d’acqua.
Tieni questo bicchiere con le due mani, superficie rasa
d’acqua, riflette il tuo viso e il cielo. Come sono belli
i colori riflessi in quest’acqua immobile. Le tue mani
non tremano, tu sai che ogni minimo sobbalzo
farà versare gocce di questo liquido prezioso, ma sai
anche che t’aspetta un lungo cammino. Trasporti
acqua e vocali, suono e senso, gusti ogni attimo
di ogni parola, acqua, ma ci sono pietre nell’alfabeto,
sentieri dove non passa nessuno da molto tempo,
e, perciò, scorrono gocce lungo le pareti del bicchiere,
cadono a terra, affondano nel terreno del cammino.
Tieni il bicchiere con le due mani davanti al petto,
e, quando piove, quando il cielo decide di piovere,
queste gocce attraversano linee segrete in aria e tornano
a riempire il bicchiere. Ti cola l’acqua dai capelli, hai
i vestiti bagnati, incollati al corpo, sei un corpo
in mezzo alla tempesta, sai qual è il tuo compito.
Sì, tradurre libri è trasportare un bicchier d’acqua
attraverso frontiere, attraverso montagne,
attraverso le parole che tua madre t’ha insegnato
e le parole che mia madre m’ha insegnato.
Sai che perdi e vinci lungo il cammino,
sai che, alla fine, noi ci incontreremo.
Rimarremo in silenzio. E, con occhi sovrapposti,
vedremo la stessa cosa.
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Suzuki Harunobu
La cortigiana Kasugano mentre scrive una lettera (1765)
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