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Oftalmologia
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Tapo o olho esquerdo com a mão esquerda e,
de repente, perco metade do mundo. Sou incapaz de desobedecer a esta bata branca, a esta voz que, como a manhã, enche a sala, desliza no brilho do mobiliário funcional, no cheiro acre dos remédios. Quero ser o melhor aluno da turma, apesar de ser o único. Selecionaram-me entre um grupo de desconhecidos com cara de outono. O doutor tem uma varinha fina, habilitada para cortar o ar. O doutor tem piadas que, nota-se, repetiu muitas vezes. O bico da varinha é vermelho e preciso, poderia apontar cada letra deste poema se, por acaso, alguém já o tivesse escrito. O doutor não me pergunta pelo enorme E, maiúsculo, soberano, rei absolutista da pirâmide inquestionável. Prescinde também da linha abaixo, casal de consoantes aristocratas, e também das linhas logo a seguir, iniciais de palavras que apenas se usam em certos dias. Por fim, quando escolhe uma letra, limpo a garganta para dizê-la. Orgulhoso, sou realmente o melhor aluno da turma. Mas o doutor, solene, desce outra linha e deixo de reconhecer a diferença entre um C e um G. Tapo o olho direito com a mão direita, mas é tarde demais, desaprendi. Nas últimas linhas: tinta misturada com água, letras desfeitas pela chuva, alfabeto de um deus que jamais voltarei a ler. Eis a solidão absoluta. |
Copro l’occhio sinistro con la mano sinistra e,
d’un tratto, perdo metà del mondo. Sono incapace di disobbedire a questo camice bianco, a questa voce che riempie la stanza, come il mattino, scivola sul lucido del mobilio funzionale, nell’ acre odore dei medicinali. Voglio essere il miglior alunno della classe, nonostante sia l’unico. Mi hanno selezionato entro un gruppo di sconosciuti dai visi autunnali. Il dottore impugna una bacchetta sottile, capace di tagliar l’aria. Il dottore fa delle battute che, si nota, ha ripetuto tante volte. La punta della bacchetta è rossa e precisa, potrebbe indicare ogni lettera di questa poesia se, eventualmente, qualcuno l’avesse già scritta. Il dottore non considera l’enorme E, maiuscola, sovrana, regina assoluta dell'incontestabile piramide. Tralascia pure la riga sottostante, coppia di consonanti aristocratiche, ed anche le righe lì a seguire, iniziali di parole che si usano appena in determinati giorni. Infine, quando sceglie una lettera, mi schiarisco la gola per dirla. Orgoglioso, sono davvero il miglior alunno della classe. Ma il dottore, solenne, scende di una riga e non riesco più a riconoscere la differenza tra una C e una G. Copro l’occhio destro con la mano destra, ma è troppo tardi, tutto ho scordato. Nelle ultime righe: inchiostro misto ad acqua, lettere diluite nella pioggia, alfabeto di un dio che mai tornerò a leggere. Ecco la solitudine assoluta. |
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| Nir Tober Alfabeto di fuoco (2010) |

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