Diria o Ricardo Reis


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Diria o Ricardo Reis
Ricardo Reis direbbe

Em nós tudo acabará
Num nó onde quebraremos.
No silêncio,
Onde afogaremos tudo o que está para trás
E seremos afogados na distância.

Saibamos acabar,
Cumpramos as estações que despertam
Na possibilidade dos dedos.
E quando acabarmos,
Abramos as mãos
E que nenhum por fazer delas role.

Saibamos não legar perante a morte
À nossa curta vida
As feições da culpa
De ainda mais a termos encurtado.
In noi tutto finirà
In un nodo in cui c’infrangeremo.
Nel silenzio,
In cui affogheremo tutto ciò che è stato
E su questa distanza saremo affogati.

Dobbiamo saper finire,
Adeguiamoci alle stagioni che si risvegliano
Nell’arco delle dita d’una mano.
E quando noi finiremo,
Apriamo le mani
E che non cada nulla di sospeso.

Davanti alla morte non ascriviamo
Alla nostra breve vita
Le prove della colpa
D’averla ancor più abbreviata.
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Egon Schiele
Der Lyriker (Selbstdarstellung)
1911

Adamastor


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Adamastor
Adamastor

Nos longos corredores da História
Há memórias plúmbeas de medo,
Mas cujo rosto não é o de Adamastor.

Adamastor é apenas o riso
De uma vontade virgem, inerte,
Inutilizada, que troça
Do nosso medo e mutismo.
Nei lunghi corridoi della Storia
Vi sono plumbee memorie di paura,
Ma il cui volto non è quello di Adamastor.

Adamastor è soltanto la risata
D’una forza innocente, inerte,
Inutilizzata, che si burla
Della nostra paura e del mutismo.
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Adamastor
Piastrelle nell'Hotel Buçaco Palace

Camões


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Camões
Camões

De ti, muito pouco sabemos
Que não seja verso:
O amor que, dócil, se estendia
Como praia matinal,
A vida traída nos declives
Dos enganos e — pior — dos desenganos,
O ser português que era algo
De não caber no peito,
Mas só no mundo.
Até os teus versos, onde os homens
Se tornaram deuses dos deuses,
Não soam humanos,
Incriados, alheios à pequenez da pena,
Envoltos no amplo silêncio de cantar,
Como ninfa da luz recém-nascida,
Nas tuas palavras se erige uma língua,
As suas novas dores e sortilégios e silêncios.
Tão somente isto de ti sabemos:
Alma de terra e oceano.
Di te, conosciamo assai poco
Al di là dei tuoi versi:
L'amore che, docile, s’offriva
Come spiaggia al mattino,
La vita tradita sulla china
Degli inganni e - peggio ancor - dei disinganni,
L'essere portoghese che era qualcosa
Da non poter stare in un cuore
Ma nel mondo intero.
Anche i tuoi versi, in cui gli uomini
Divengono dei degli dei,
Non paiono umani,
Increati, estranei all’esiguità della penna,
Avviluppati nell'ampio silenzio del canto,
Come ninfa d’una recente luce,
Dalle tue parole scaturisce una lingua,
I suoi nuovi dolori e sortilegi e silenzi.
E questo è quanto noi di te conosciamo:
Anima di terra e d'oceano.
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Luís Vaz de Camões
O Mosteiro dos Jerónimos

As influências na poesia


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As influências na poesia
Le influenze in poesia

A sombra de uma linha sobre nós
Que se acoita na nossa língua,
Como uma doença,
E a rouba.
A luz lisa do papel, a sua candura
Já obscurecida
Por uma voz já rouca,
Um olhar já rasgadamente aberto,
Um lábio já tangido,
Uma colina de barcos já envelhecidos,
Um degrau de crinas já consumido,
Uma veia já navegada pelo sorvo.

A maré que engole
O lugar da nossa liberdade.
Somos a folha invadida
Pelo incêndio minúsculo de um eco.
É sempre a mão da luz alheia
Que nos guia por entre o vapor das palavras
E nos faz juntar águas
Onde esta manhã de um anel já foi ouvida.

Invadidos por páginas,
Lutamos para não ser apenas a ramificação
  de uma boca.

L’ombra d’un verso su di noi
Che contagia la nostra lingua,
Come una malattia,
E la snatura.
La morbida luce della carta, il suo candore
Già offuscato
Da una voce già rauca,
Uno sguardo già schiettamente aperto,
Un labbro già sfiorato,
Un mucchio di barche già invecchiate,
Una passerella di corde già consunte,
Una vena già percorsa dalla linfa.

La marea che ingoia
Lo spazio della nostra libertà.
Siamo il foglio invaso
Dal minuscolo incendio di un’eco.
È sempre la mano di un’illuminazione altrui
Che ci guida tra i vapori delle parole
E ci ricongiunge ad acque
Ove di quest’alba nuziale già si udì parlare.

In un’invasione di pagine,
Ci battiamo per non essere soltanto la diramazione
  di un’altra bocca.

________________

...
Marc Chagall
La Mariée à la Lune
(1948-1950)
...

Silêncio


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Donizete Galvão »»

Do Silêncio da Pedra (1996) »»

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Silêncio
Silenzio


De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.

Esser di pietra.
Della pietra avere
il duro desiderio di durare
Passino le legioni
con le loro ossa esposte.
Piangano i vecchi
nei cappotti olenti di naftalina.
La nave bianca giunge al porto
e tinge di vino il blu del mare.
Il massiccio roccioso,
alle spalle della città
sette volte distrutta,
celebra il silenzio.
La pietra tace
ciò che l’addolora.

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Paul Cézanne
Montagna di Sainte Victoire (1902-1904)

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