Inverno


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Inverno
Inverno


  à Susana Morais

No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
de lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar
  a Susana Morais

Il giorno in cui fui più felice
vidi un aereo
riflettersi nel tuo sguardo finché sparì
dove finì... non so?
Passeggio lungo il canale
scrivo lunghe lettere a nessuno
e l’inverno a Leblon è quasi glaciale.
C’è una cosa che non ho mai chiarito:
dove fu precisamente che abbandonai,
proprio quel giorno, il leone che sempre cavalcai?
Fu proprio là che mi scordai
che il destino
sempre mi volle solo
nel deserto senza rimpianti, senza rimorsi, solo
senza legami, barca ubriaca in mare
Non so che cosa in me
si ostina a ricordare
che un giorno il cielo,
per un attimo solo, alla terra per noi due si riunì
poco prima che tutto l’occidente s’oscurasse.
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Mario Sironi
Cavallo bianco e molo (1920)
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Guardar


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Guardar
Proteggere


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance de um poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Proteggere una cosa non è nasconderla o rinchiuderla.
Nel forziere non si protegge nulla.
Nel forziere si perde di vista la cosa.

Proteggere una cosa è guardarla, fissarla, osservarla per
ammirarla, vale a dire, illuminarla o esserne illuminato.

Proteggere una cosa è curarsene, quindi, aver cura di
lei, quindi, vegliare su di lei, quindi star sveglio per lei,
quindi, esserci per lei o esistere per lei.

Per questo si protegge meglio il volo di un uccello
che non un uccello che non vola.

Perciò si scrive, perciò si parla, perciò si pubblica,
perciò si pronuncia e declama una poesia:
Per proteggerla:
Perché lei, a sua volta, protegga ciò che protegge:
Protegga ciò che vuole che protegga una poesia:
Per questo si lancia una poesia:
Per proteggere ciò che si vuol proteggere.
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Pablo Picasso
Madre e figlio (1921)
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Eu vi o rei passar


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Eu vi o rei passar
Ho visto passare il re


Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.

Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.

Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor.

Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.
Un re così
non sente molto bene
e ama la luce;
senza veder nessuno
preferisce guardare
il cielo, l’orizzonte:
fino a molto distante
è suo tutto quanto.

Il suo sangue blu
da dove viene nessuno sa
da che terra
che mare, che profondità;
e con noi
egli giammai s’aprì
salvo una volta
ma poi partì.

Un re così
coltiva la solitudine
struggente fiore
dentro il suo cuore
ed è chiaro
che il pendolo dell’amore
talvolta batte
fino a sentir dolore.

Devo ammettere
che non troppo soffrii.
Devo ammettere
che di botto mi svegliai.
Anche se non è stato
come me l’ero immaginato
devo ammettere
che in fondo l’ho amato.
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Giacomo Mantegazza
Il passaggio del re (~1892)
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Água Perrier


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Água Perrier
Acqua Perrier


Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.
Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.
Non voglio trasformare te
né esibire nuovi mondi
perché io, amor mio, trovo gradevoli perfino i clichês.
Adoro questo sguardo blasé
che non soltanto ha già visto quasi tutto
ma trova che tutto è déjà vu ancor prima di vederlo.

Solo mi ripropongo
di nutrire il tuo tedio.
Pertanto, espongo
la mia ammirazione.
In cambio tu offri il
tuo sguardo senza sogni
alla mia contemplazione:

Adoro, va a sapere perché,
quello sguardo
semichiuso
che invece del mio alcool forte chiede acqua Perrier.
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Ana Alexandrino
Copertina dell'album
«Presente (Antonio Cicero 70)»
(2016)
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Paguei já demasiado...


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Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (aprile 2023) »»
 
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Paguei já demasiado...
Ho già pagato troppo...


Paguei já demasiado:
A estrídula acidez da vida,
O teu fogo indecifrável em mim,
Depois extinto, já nem cinza.
A luz que não ilude os olhos,
A luz, ainda outra forma de escuridão,
Este sofrer de não entregar a dor no verso,
Mas apenas vê-la reflectida nele,
Ampliada, propagada em quem me lê
A morte imperceptível.
Quanto ainda me resta pagar?
Ho già pagato troppo:
La stridente asprezza della vita,
Il tuo fuoco indecifrabile in me,
Estinto poi, neanche più cenere ormai.
La luce che non illude gli occhi,
La luce, soltanto un’altra sorta d’oscurità,
Questo patire per non saper tradurre il dolore in verso,
Ma in esso vederlo solamente riflesso.
Ampliata, estesa a chi mi legge
La morte impercettibile.
Quanto mi resta ancora da pagare?
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Kai Nielsen
Deserted Moment (1911)
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