Desse lugar não há caminho...


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Desse lugar não há caminho...
Da questo posto non c’è via di ritorno...


Desse lugar não há caminho em que se venha.
E, no entanto, eu a vejo ali,
junto às flores secas do jardim,
há tanto tempo abandonado.

Mas vejo uma mulher imóvel,
como se dentro de um quadro,
sendo a moldura o canteiro,
ou meu pobre olhar amargurado.

Os pés estão quase suspensos,
e o corpo se fez de fino pólen.
Ainda posso enxergar a face,
que, apesar de tudo, me sorri.

Vinda de onde não se vem,
permanece sentada no jardim.
Tenho receio de assustá-la,
com qualquer ruído ou movimento.

Não posso, sequer, me aproximar.
Devo olhá-la de longe, cuidadoso,
sem dizer uma única, só palavra,
sempre calado e sempre distante.

E penso quando irá embora,
se poderá voltar outro dia,
dessa ausência de muitos anos,
e dessa vasta e lenta agonia.


Da questo posto non c’è via di ritorno.
E, tuttavia, io la vedo lì,
vicina ai fiori secchi del giardino,
già da tanto tempo abbandonato.

Ma vedo una donna immobile,
come se stesse in un quadro,
incorniciato dal bordo dell’aiuola,
o dal mio mesto sguardo addolorato.

I piedi sono quasi sospesi,
e il corpo è polline sottile.
Ancora posso contemplarle il viso,
che, malgrado tutto, mi sorride.

Tornata da dove non si torna,
rimane lì seduta nel giardino.
Ho timore di incuterle spavento,
con qualche rumore o movimento.

Non posso neppure avvicinarmi.
Devo guardarla, prudente, da lontano
senza dire un’unica parola soltanto,
sempre silente e sempre distante.

E penso a quando se ne andrà via,
se mai potrà tornare un’altra volta,
a questi anni di penosa assenza,
e a questa immane e lenta agonia.

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Claude Monet
Donna con parasole (1886)

Cemitério de Ayuruoca...


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Cemitério de Ayuruoca...
Cimitero di Ayuruoca...


Cemitério de Ayuruoca:
túmulo esquecido de minha mãe,
onde deixei umas flores amarelas.
À distância de apenas um braço,
o túmulo recente da tia Geni.
Tia Geni de coração enorme,
e voz aborrecida.
Tão aborrecida
que minha mãe usava-a
como pílula para dormir,
nas vezes que a visitava.
No ritmo da conversa
entrava num sono profundo.
O sono perfeito que procurara,
aflita, sem lugar, a semana inteira.

Foi com alguma surpresa
que percebi, sob meus pés,
as duas, ali, juntas, deitadas,
minha mãe e minha tia,
as duas dormindo o sono
do qual ninguém acorda,
e que alguns dizem eterno.
Pois que eterna é também essa visita,
que nunca, e nunca mais se acaba.


Cimitero di Ayuruoca:
il sepolcro dimenticato di mia madre,
ove ho deposto dei fiori gialli.
Alla distanza di un braccio appena,
il sepolcro recente della zia Geni.
Zia Geni dal cuore immenso,
e dalla voce soporifera.
Talmente soporifera
che mia madre la usava
come pillola per dormire,
quando l’andava a trovare.
Cullata dal ritmo della parlata
entrava in un sonno profondo.
Quel sonno perfetto cui anelava,
afflitta, smarrita, tutta la settimana.

Fu con un certo stupore
che avvertii, sotto i miei piedi,
loro due, lì, vicine, distese,
mia madre e mia zia,
dormendo entrambe il sonno
da cui mai nessuno ritorna,
e che certi dicono eterno.
Ed è eterna anche questa visita,
che mai e poi mai ha fine.

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Paul Klee
Cimitero (1920)
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Não pensar nas mazelas dessa vida...


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Não pensar nas mazelas dessa vida...
Non pensiamo alle amarezze della vita...


Não pensar nas mazelas dessa vida.
Deixar que a alma clara navegasse,
calma, as velas brancas enfunadas,
em vastos, muito largos horizontes.
Nostalgia de dias limpos, de praias,
também de mal-esquecidas infâncias.
Solto no ar o corpo dançaria,
vivo e acima, em harmonia,
na bela harmonia dos tendões.

O corpo se esquece quando dança,
inventando outro corpo, diferente,
unindo emoção e movimento.
E junto desse corpo outra fala,
esta mais alegre e transparente,
porque vinda mais de dentro.
E junto dessa fala a sintonia,
um olhar mais brando sobre as coisas,
um calor de alma sem segredos.


Non pensiamo alle amarezze della vita.
Lasciamo che l’anima pura navighi,
calma, con le bianche vele rigonfie,
su vasti e sterminati orizzonti.
Nostalgia di giorni sereni, di spiagge,
e ancor più d’incancellate infanzie.
Libero nell’aria il corpo danzerà,
vivo ed eccelso, in armonia,
nella bella armonia dei tendini.

Il corpo di sé si scorda quando danza,
inventando un altro corpo, differente,
nell’unione d’emozione e movimento.
E insieme a questo corpo un altro idioma,
questo più brioso e trasparente,
perché scaturito dal profondo.
E insieme a quest’idioma la sintonia,
uno sguardo più soave sulle cose,
un calore d’anima senza segreti.

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Marc Chagall
La passeggiata (1917-1918)
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Dizem que puseram um homem na lua...


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Dizem que puseram um homem na lua...
Dicono d’aver posato un uomo sulla luna...


Dizem que puseram um homem na lua:
Não acredites.
E que tivessem?
O que buscam no minério dos astros?
Quanto tocam do Universo
É sempre o mesmo nada
Perante o Universo.

 «Um pequeno passo para mim,
 um grande passo para a humanidade».
Chegaram à lua.
A única coisa que mudou foi isto:
Pode morrer-se mais alto.

Dicono d’aver posato un uomo sulla luna:
Non crederci.
E cosa otterrebbero?
Che cosa cercano nelle miniere stellari?
Quel che conquistano dell'Universo
È sempre lo stesso nulla
Di fronte all'Universo.

   «Un piccolo passo per me,
   un grande passo per l'umanità».
Sono arrivati sulla luna.
La sola cosa che è cambiata é questa:
Si può morire più in alto.

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Robert Rauschenberg
Arena II from stoned moon series
(1969)

Inseguro como quem procura...


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Inseguro como quem procura...
Insicuro come chi cerca...


Inseguro como quem procura
um interruptor no escuro,
e não encontra outro corpo,
nem sombra de vela,
no mesmo cubo de trevas.

(Cubo de trevas onde nadam
os peixes cegos da insônia,
com sua esquisitas guelras,
e penosas barbatanas.)

Silêncio de mariposas mortas.
O sono se apartou do mundo,
seiva rara em velho tronco.
E nada há por fazer,
senão suportar a espera.

Até que o lodo espesso da noite,
mole feito um desmaio,
vá se diluindo, pouco a pouco,
em cada rua deserta,
em cada pálpebra entreaberta,

e te ofereça, agora sem aflição,
das auroras de festim e gripe,
diferente e novo,
um outro, mesmo dia.


Insicuro come chi cerca
un interruttore al buio,
e non trova altro corpo,
né ombra di candela,
nello stesso cubo di tenebra.

(Cubo di tenebra ove nuotano
i pesci ciechi dell’insonnia,
con quelle strane branchie,
e le taglienti pinne.)

Silenzio di farfalle morte.
Il sonno s’è ritratto dal mondo,
linfa rara per un vecchio tronco.
E non c’è niente da fare,
se non sopportare l’attesa.

Finché lo spesso limo della notte,
molle come un deliquio,
si vada stemperando, poco a poco,
in ogni via deserta,
in ogni palpebra semiaperta,

e ti offra, ma ora senza lo stordimento
che segue a festini o a malanni,
differente e nuovo,
un altro, identico giorno.

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Paul Klee
Notte di Valpurga (1935)
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