Faz-me o favor...


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Faz-me o favor...
Fammi il favore...


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Fammi il favore di non dire assolutamente niente!
Supporre quel che dirà
La tua bocca serrata
È sentirti già.

È sentirti meglio ancora
di come lo diresti tu.
Quello che sei non traspare
Dai giorni e dai gesti.
 
Tu sei migliore - molto migliore!
Di te. Non dire niente. Sii
L’anima del corpo nudo
Che nello specchio si vede.

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Egon Schiele
Autoritratto nudo (1910)
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Tantos pintores...


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A Cidade Queimada (1966) »»
 
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Tantos pintores...
Tanti pittori...


Tantos pintores... A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio (daqui ninguém
me tira) chamado paisagem
Tantos escritores
 
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade

Tanti pittori... La realtà commossa ringrazia ma rimane
al medesimo posto (e da qui non mi sposta nessuno)
chiamato paesaggio
Tanti scrittori

La realtà commossa ringrazia
e continua a spargere freddo
su interi quartieri, in città,
e altrove
Tanti morti
nel fiume
La realtà commossa ringrazia
perché sa che fu per lei il sacrificio
ma non ringrazia molto
Lei sa che i pittori
gli scrittori
e chi muore
non ama la realtà
ne vogliono solo un assaggio
ma non le si accostano molto può far soffocare
Solo il vecchio organetto all’angolo
suonato dalla manovella a soffietto
senza garbo senza fine e senza voglia
riporta alla solitudine della realtà

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Egisto Lancerotto
Scuola di pittura (1886)
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O navio de espelhos


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O navio de espelhos
La nave di specchi


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

La nave di specchi
non naviga, cavalca

Il suo mare è la foresta
che le serve da livello

Al crepuscolo riflette
sole e luna nei suoi fianchi

(Per questo il tempo ama
insieme a lei giacersi)

Agli armatori non piace
la sua rotta luminosa

(A chi sta in movimento
sembra che non si muova)

Quando raggiunge un porto
nessuno consente l’approdo

(Niente porta la sua stiva
niente reca alla partenza)

Voci e aria pesante
è tutto ciò che trasporta

(E sull’albero maestro
par riflettersi una porta)

I suoi diecimila capitani
han tutti la stessa faccia

(La stessa cintura scura
lo stesso grado e ruolo)

Quando se ne ammutina uno
ci son diecimila ribelli

(Come negli occhi della mosca
si riflettono gli oggetti)

E quando uno di loro solleva
il corpo sull’albero maestro
e scruta il mare nel profondo

Tutta la nave cavalca
(come nello spazio gli astri)

Dal principio del mondo
fino alla fine del mondo

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Mário Cesariny
A modo nostro nel Mondo (1967)
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Todos por Um


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Nobilíssima Visão (1959) »»
 
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Todos por Um
Tutti per uno


A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem
de recorrer à vala comum

Il mattino è così triste
che i poeti romantici di Lisbona
son morti tutti di sicuro

Santi
Martiri
ed Eroi

Che tempaccio starà facendo a Porto?
Mattinata triste, senza dubbio.

Voglia il cielo che i poeti romantici di Porto
siano comprensivi al punto da lasciar libera
una porzioncina di cimitero fiorito
affinché i poeti romantici di Lisbona non debbano
ricorrere alla fossa comune

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Hugo Simberg
Il giardino della morte (1896)
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Inundando a matéria...


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Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (dicembre 2020) »»
 
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Inundando a matéria...
La materia va inondando...


Inundando a matéria
Com a energia da altura,
A raiz.
O tronco, os ramos mais elevados,
Mais embriagados de seiva,
As folhas ondeantes de verde
São a carne e o meio
Do sonho em que a raiz arde:
O de, algum dia, ser céu.

La materia va inondando
Con l’energia dell’altezza,
La radice.
Il tronco, i rami più elevati,
Più inebriati di linfa,
Le foglie ondeggianti di verde
Sono la carne e il veicolo
Del sogno ove la radice arde:
Quello d’essere, un giorno, cielo.

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Sylvie Loeb
Arbre 14 (2010)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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