Asa de corvo


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Asa de corvo
Ala di corvo


Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária -
Cose para o homem a última camisa!

Ala di corvi sanguinari, ala
Di malaugurio che, nei dodici mesi,
Copre a volte il cielo e copre in altri casi
Il tetto della nostra stessa casa…

Perseguitato da tutte le sciagure,
È mio destino vivere accanto a quest’ala,
Come cenere che vive accanto alla brace,
Come i Goncourt, come i fratelli siamesi!

Sotto quest’ala questo sonetto faccio
E l’umano zelo fa il nero canovaccio
Che le famiglie in lutto tanto cruccia…

È ancora con quest’ala straordinaria
Che la Morte - la sarta funeraria -
All’uomo cuce la sua ultima camicia!

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Odilon Redon
Il corvo (1882)
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Envelheci...


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Envelheci...
Sono invecchiato...


Envelheci. Tanta coisa se fez jovem
À custa da minha juventude.
O amor fez-se jovem
No meu sangue, na minha angústia,
Na minha ironia,
Onde continuamente aportavam sonhos.
Envelheci. Já não espero nada,
Já não creio, já não desejo.
Sei, claramente, que a idade
Vai espessando pelos lugares,
Sei, claramente, que vou ficando
Aqui, só, entre o vazio
De já não esperar nada
E sei que a minha vida me olha
Como um cão suplicante.
Sei que a minha vida
Espera de mim uma esperança.

Sono invecchiato. Tante cose sono ringiovanite
A spese della mia giovinezza.
L’amore è ringiovanito
Nel mio sangue, nella mia angoscia,
Nella mia ironia,
A cui continuamente approdavano sogni.
Sono invecchiato. Non m’aspetto più niente,
Più non credo, più non aspiro.
So, chiaramente, che l’età
Si va accrescendo sempre più,
So, chiaramente, che io rimango
Qui, da solo, entro questo vuoto
Del non aspettarsi più niente
E so che la mia vita mi guarda
Come un cane implorante.
So che la mia vita
Da me s’aspetta una speranza.

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Joan Miró
Cane che abbaia alla luna (1952)
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Agonia de um filósofo


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Agonia de um filósofo
Agonia di un filosofo


Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!...
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

Consulto lo Phtahhotep. Leggo l’obsoleto
Rig-Veda. E neppur con tali opere ho conforto…
L’Inconscio mi spaventa e mi ci contorco
Con l’eolica foga dell’harmattan infuriato!

Assisto ora alla morte d’un insetto!…
Ah! tutti i fenomeni del suolo
Sembrano realizzar da polo a polo
L’ideale d’Anassimandro di Mileto!

Sullo ieratico areopago eterogeneo
Delle Idee, io indago come un genio
Dall’anima di Haeckel all’anima claustrale!..

Strappo dei mondi il sipario spesso;
E del tutto simile a Goethe, riconosco
L’impero della sostanza universale!

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Anne Shingleton
Scarafaggio supino (1991)
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A um carneiro morto


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A um carneiro morto
A un agnello morto


Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos -fontes de perdão -perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia de Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!

Misericordiosissimo agnello
Macellato, la maledizione di Pio
Decimo cada sul tuo ignobile boia
E su tutto ciò che discenderà da quello!

Sia maledetto il mercante nefando
Che le tue carni vendette per denaro,
Poiché la tua lana dà calore al mondo intero
E protegge i corpi di chi sta tremando!

Quando nella tua gola s’affondò il coltello,
A quel mostro che t’insanguinò il bel collo
I tuoi occhi - clementi - offrirono perdono!

Oh! tu che col Perdono io simbolizzo,
Se tu fossi Dio, nel Giorno del Giudizio,
Forse perdoneresti il tuo assassino!

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Francisco de Zurbaran
Agnus Dei (1635-1640)
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A idéia


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A idéia
L’idea


De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegração maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeda que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

Da dove viene?! Da che materia bruta
Vien questa luce che sopra le nebulose
Cade da ignote cripte misteriose
Come le stalattiti d’una grotta?!

Viene dalla psicogenetica e alta lizza
Del fascio di molecole nervose,
Che, in disgregazioni meravigliose,
Delibera, e poi, vuole e realizza!

Viene dall’encefalo occulto che la stringe,
E dopo arriva alle corde della laringe,
Tisica, tenue, minuscola, rachitica…

Spezza la forza centripeta che la sottomette,
Ma, d’un tratto, e quasi morta, s’imbatte
Nel cencio d’una lingua paralitica!

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Bharti Kher
Grey not Black, not White (2017)
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