Poema de cortesia


Nome:
 
Collezione:
Fonte:
 
Altra traduzione:
Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (agosto 2019) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Poema de cortesia
Poesia di cortesia


« Ireland is the old sow that eats her farrow. »
 James Joyce

Foi a porca devoradora das próprias crias,
A mãe que expulsa os seus filhos.
As ruas parecem amáveis
Enquanto passeio por elas,
Enquanto a minha própria mãe
Agoniza, sem mo dizer.
E, no entanto, a policia expulsa
Três sem-abrigo que elegeram
A colunata do Banco da Irlanda
Como tecto provisório para a noite;
E num beco imundo, onde a treva
É ainda medieval,
Outra mãe, com o filho ao colo,
Pede esmola. É claro, os tempos não são sociais,
Mas a alegre culpa não é da Irlanda.
[A culpa morrerá secreta viúva
de palavras de futuro.]

« Ireland is the old sow that eats her farrow. »
 James Joyce

Fu la troia divoratrice delle sue stesse creature,
La madre che scaccia i suoi figli.
Sembrano accoglienti le vie
Mentre io le percorro,
Mentre la mia stessa madre
Agonizza, senza dirmelo.
E intanto, la polizia scaccia
Tre senzatetto che hanno eletto
Il colonnato della Banca d'Irlanda
A provvisorio rifugio per la notte;
E in un lurido vicolo, ove le tenebre
Sono ancora medievali,
Un’altra madre, col figlio in braccio,
Chiede la carità. Certo, i tempi non sono sociali,
Ma la lieta colpa non è dell’Irlanda.
[La colpa morirà segreta vedova
Di parole del futuro.]

________________

Oscar Wilson
Crisis Charity Poster
...

Estudo para um quadro


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
A Fonte da Vida (1997) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Estudo para um quadro
Studio per un quadro


O lápis, o pimento e o alho francês juntaram-
-se por acaso, em cima da mesa da cozinha. En-
tão, poderiam ter servido para uma natureza
morta; e um outro sentido nasceria, da sua
coincidência, se a toalha fosse azul e vermelha.
No entanto, o lápis acabou a fazer a lista das
compras, o pimento foi parar à panela do arroz
e o alho francês, cortado às rodelas, ferveu
durante uns minutos até a sopa acabar de cozer.

La matita, il peperone e il porro si ritrovarono,
per caso, sopra il tavolo della cucina. Ecco che
sarebbero potuti servire per una natura
morta; e sarebbe sorto un altro significato, dalla loro
coincidenza, se la tovaglia fosse stata rossa e blu.
E invece, la matita servì per fare la lista della
spesa, il peperone andò a finire nella padella del riso
e il porro, tagliato a rondelle, rosolò
qualche minuto finché il risotto fu cotto a puntino.


________________

Jean Siméon Chardin
Natura morta con utensili da cucina e verdure
(1734)

O amor eterno


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
A Fonte da Vida (1997) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


O amor eterno
L’amore eterno


E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
húmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.

Ed ora che le mani dell’incredula
fanciulla ti spingono verso l’uscita,
dove pioverà, come annuncia
il colore del cielo, non opporti. Per strada,
dove i venti s’incrociano all’angolo,
quelli che spirano dal nord, da colline
imbiancate dall’inverno, e quelli che
vengono dal fiume, portando la sensazione
umida del litorale, accenditi una sigaretta,
affinché il calore del fuoco ti riconforti
le mani, prosegui sul marciapiede, mentre
il freddo ti abbandona, e ascolta il canto dell’acqua
sotto la terra: correnti
al limite fra il gelo
e il fuoco, un’evaporazione di umori,
come se le anime lottassero in cerca di
uscita, e, nel fumo d’una memoria
di desco antico, tu e colei che hai amato,
scambiando le frasi mattutine del re-
incontro. Vetri appannati dalle
lacrime della rottura, domande senza
risposta, la casa con le luci
spente, come se fosse vuota - e come
se tu non sapessi che i destini si decidono
al di sopra di noi, dove ad ogni istante
un dio annoiato ci manda all’aria le inutili
promesse d’eternità.


________________

Night. (at Bryant Park) - New York City
fotografata da Vivienne Gucwa

Correspondência


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
O Movimento do Mundo (1996) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Correspondência
Corrispondenza


Vejo as nuvens que avançam do Atlântico
para o continente. E, por trás delas, como um pastor
exigente, o vento que as empurra. Depois,
as nuvens passam e volta o sol, com o azul
imutável das manhãs de outono, monótono e distante
como quem o olha, ao sair de casa, sem
tempo para pensar no tempo.

Vedo le nuvole che avanzano dall’Atlantico
verso il continente. E, dietro di loro, come un pastore
esigente, il vento che le sospinge. Dopo,
le nuvole passano e torna il sole, col blu
invariabile delle mattine d’autunno, monotono e distante
come chi lo guarda, uscendo di casa, senza
aver tempo di pensare al tempo.

As nuvens, no entanto, continuam
o seu caminho: umas, desfazem-se em água
sobre campos vazios, ou descem para as grandes
cidades para as abraçar com um tédio
enevoado. As que me interessam, porém,
são as que sobem para norte, e ficam
mais frias à medida que as pressões continentais
abrandam o seu curso, Então, param
em dias cinzentos; e, por fim, escurecem
a tua alma, quando as olhas, e te apercebes
de que se aproxima um inverno
de solidão.

Le nuvole, frattanto, continuano
il loro cammino: alcune, si dissolvono in acqua
sui campi sgombri, o calano verso le grandi
città per abbracciarle con un’inedia
imbronciata. Quelle che m’interessano, però,
sono quelle che risalgono verso nord, e si fanno
più fredde via via che le pressioni continentali
ne rallentano il corso. Allora, indugiano
in giornate grigie; e, infine, ti oscurano
l’anima, quando le guardi, e ti accorgi
che s’avvicina un inverno
di solitudine.

A não ser que leias, nesse obscuro céu,
esta carta que te mando.

A meno che tu non legga, in questo cielo buio,
questa lettera che io ti mando.


________________

Pascal Girard
Acrilico su tela (2018)

Receita para fazer o azul


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Meditação sobre Ruínas (1994) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Receita para fazer o azul
Ricetta per fare il blu


Se quiseres fazer azul,
Se vuoi fare il blu,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela
     grande,
prendi un pezzo di cielo e mettilo in una pentola
     grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
da poter sistemare sulla fiamma dell’orizzonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
poi mescola il blu con un avanzo del rosso
da madrugada, até que ele se desfaça;
dell’aurora, affinché vi si stemperi;
despeja tudo num bacio bem limpo,
versa tutto in un catino immacolato,
para que nada reste das impurezas da tarde.
perché nulla rimanga delle impurità serali.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
Infine, setaccia un pizzico d’oro della sabbia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
di mezzogiorno, finché il colore aderisca al fondo metallico.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
Se vuoi che i colori col tempo non si separino,
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego
     queimado.
aggiungi al liquido un nocciolo di pesca
     bruciato.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
Lo vedrai dissolversi, senza lasciare traccia d’esser mai
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto
     de ocre
stato lì; e neppure il nero della cenere lascerà
     un’ombra ocra
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
sulla superficie dorata. A quel punto, puoi sollevare il colore
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
all’altezza degli occhi, e confrontarlo col blu autentico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
Entrambi i colori ti sembreranno simili, senza che
possas distinguir entre uma e outra.
tu possa distinguerli l’uno dall’altro.
Assim o fiz – eu, Abraão Ben Judá Ibn Haim,
Ipse fecit – Io, Abramo Ben Judah Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
miniaturista di Loulé – e ho lasciato la ricetta per chiunque,
algum dia, imitar o céu.
un giorno o l’altro, voglia imitare il cielo.

________________

Yves Klein
Anthropometry Princess Helena (1960)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (17) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)