Uma emergência de Outono


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Uma emergência de Outono
Un’emergenza autunnale


As cores da maçã assada aberta
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar por casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso
com cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).
I colori della mela aperta cotta al forno
sul finir dell’estate anticipano sul palato
un’emergenza autunnale.
Invita a rimanere in casa
questa mela che ho ferito e spennellato sul dorso
con cézannes di cannella.
Sotto l'epidermide brunita (color
giallo-peccato) è
imperituro il suo sapore. Guarda
come giacciono nude
le sue spoglie sul piatto
(come vesti di ragazza disseminate
sul pavimento).
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Mario Tozzi
Composizione con mele (1958)
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Botox®


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Botox®
Botox®


Procura as minhas mãos uma mulher
nos quarenta
pedindo que lhe atrase o outono dos olhos
cansados: «só queria perder dez anos». E
tento o que de amargo possa ter acontecido
para a ter a desejar punir
um decénio da idade –
dou comigo a lamentar não saber delir
memórias somente
rugas e rídulas (ruínas
pouco marcadas). Na armadilha do tempo
ninguém tomba por engano:
não se expurga a pele por décadas quanto muito
dano a
dano.
Chiede l’aiuto delle mie mani una donna
sui quaranta
con la pretesa che rinvii l’arrivo dell’autunno
sui suoi occhi stanchi: «vorrei perdere dieci anni». E
indago su ciò che d’amaro le possa esser successo
per farle desiderare di punire
un decennio della sua età –
Mi ritrovo a deplorare di non saper cancellare
ricordi, ma solamente
rughe e rughette (dissesti
poco evidenti). Nella tagliola del tempo
nessuno cade per sbaglio:
la pelle non si ritocca a decadi tutt’al più
difetto per
difetto
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Meret Oppenheim
Autoritratto con tatuaggi (1980)
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Ponte móvel sobre o rio Leça


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Revista Poesia Sempre n°26 (2007) »»
 
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Ponte móvel sobre o rio Leça
Ponte mobile sul fiume Leça


Imóvel na ponte aberta sobre este porto de mar
queria não ter que esperar que o petroleiro passasse
a vomitar outro preto nos depósitos da Cepsa.
Olho as margens da tarde em informe ebulição
o navio japonês veio dar à luz Toyota’s
alinhados sobre o cais qual parada militar
(os turistas do cruzeiros aguardam pelo autocarro
que lembrará em sueco memórias do Porto antigo).
Do cargueiro africano rolam troncos gigantescos
houve um que caiu à água e ninguém o foi salvar
(decerto não irá longe nestas águas estagnadas
nem poderá ir mais ao fundo).
Corre um vento de norte. Novembro
está dentro do Outono. Alguém reuniu o manto
de folhas cerca da ponte mas pelo final do dia
já é Outono outra vez. Mas
distraí-me do cais. Espera. Lá está a marinha.
A fragata da Defesa devolveu homens à terra
meio-dia de licença na casa da luz vermelha
(este Natal as meninas vão-lhes dar a provar sonhos
e o porteiro: rabanadas). E se
faltam desrazões para me obrigar a parar
aqui me têm parado
(só reparando se vê)
qualquer amurada é perfeita para resumir um país
qualquer ponte é ideal para se matar
os tempos.
Immobile sul ponte aperto sopra questo porto di mare,
non vorrei dover aspettare che la petroliera passasse
per vomitare altro nero nei serbatoi della Cepsa.
Guardo le sponde della sera ribollire inquiete,
la nave giapponese è giunta per dare alla luce delle Toyota
allineate sulla banchina come in parata militare
(i turisti in crociera attendono il pullman
che racconterà in svedese le memorie dell’antica Porto).
Dal cargo africano rotolano tronchi giganteschi,
uno è caduto in acqua ma nessuno è corso a salvarlo
(di sicuro non andrà lontano in queste acque stagnanti
né potrà andare più a fondo).
Spira un vento da nord. Novembre
è in pieno autunno. Qualcuno ha ammucchiato un manto
di foglie intorno al ponte ma verso la fine del giorno
è già autunno un’altra volta. Ma
sono stato distratto dalla banchina. Attesa. Là c’è la marina.
La fregata della Difesa ha rispedito gli uomini a terra
con mezza giornata di licenza nella casa dalle luci rosse
(per Natale, le ragazze faranno provare il gusto dei sogni
e il portiere: dei toast alla francese). E se
non ci sono motivi che mi obbligano a fermarmi
qui mi hanno fermato
(solo osservando si nota)
qualunque murata è perfetta per riassumere un paese,
qualunque ponte è ideale per ammazzare
il tempo.
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Jacob Henricus Maris
Ponte levatoio (1883)
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Pão quente


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Pão quente
Pane fresco


  ao Pedro Mexia
 
Escravo do que aparece escrevo
porque acontece (a doença da poesia:
não desejo poesia a ninguém). O que
garatujas na folha ao comprar uma caneta?
Algo assim como «metáfora
resiste à metonímia» ou
«virá o dia em que o simples falar
será poesia»? Este
(com licença)
poema é uma das possibilidades:
a poesia está nas coisas
(pão quente)
destapa-a.
  a Pedro Mexia
 
Schiavo di ciò che appare, scrivo
perché succede (la malattia della poesia:
non auguro poesia a nessuno). Che cosa
scarabocchi sul foglio quando compri una penna?
Qualcosa del tipo «la metafora
resiste alla metonimia» oppure
«verrà un giorno in cui il semplice parlare
sarà poesia»? Questa
(chiedo scusa)
poesia è una delle possibilità:
la poesia è nelle cose
(pane fresco),
sfornala.
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Anna Maria Maiolino
Uno tra tanti (2005)
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Decepção à Regra


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Decepção à Regra
Inghippo alla regola


Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
Sedermi e
guardare gli altri che passano è il
mio esercizio preferito. Diverte.
Non ha fine.
È gratuito. In questo mio gioco-del-no
sono gli altri che passano
(è agli altri che riservo il compito
di passare). E me ne lavo i piedi.
Scrivo la vita dall’interno.
Può sembrare che così io non
arrivi da nessuna parte, ma comunque chi
è che vorrebbe andare
al posto degli altri?
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Frédéric Bazille
Ritratto di Renoir (1867)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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