Acto de Contrição


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Acto de Contrição
Atto di contrizione


Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivos na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que os
devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como que um
indulto lento.
Alla luce fioca del garage, due figure
vanno a buttare i rifiuti. Sono vecchi sconosciuti. L'uno
cede il passaggio all’altro (con la
parvenza d’un saluto) ritrosi nell’
archeologia escatologica delle miserie.
Uomini con l’immondizia tra le mani: eccellenti
nell’occultare
lati seccanti della vita domestica (mentre
il segnale sincero lo manda l’abbondante grembiule che li
riporta a casa). C’è
in tutto questo pregiudizio una redenzione ferita
(un giudizio risolto) come una sorta
di lento indulto.
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Gianfranco Ferroni
Rifiuti (1964)
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Março é o carteiro da cor...


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Março é o carteiro da cor...
Marzo è il corriere dei colori...


Março é o carteiro da cor.
Inúmeras manhãs de inverno
Depositadas nos braços descarnados das árvores
Vão amadurecendo em verde.
Os pássaros trazem traços
Perdidos que estavam entre a bruma.
Um rasto de rostos perdidos ao longo dos meses
Regressa – agora as árvores têm rosto.
Nas praias vão-se apagando o furor
E o mar doma enfim a morte.
Março garatuja os primeiros dias brancos,
De Março renasce o meu coração.
Marzo è il corriere dei colori.
Innumerevoli mattine d’inverno
Depositate tra le scarne braccia degli alberi
Stanno maturando in verde.
Gli uccelli riportano tracce
Perdute che si celavano dentro la nebbia.
Una teoria di volti perduti nel corso dei mesi
Ritorna – adesso gli alberi hanno un volto.
Sulle spiagge va spegnendosi la furia
E il mare doma finalmente la morte.
Marzo abbozza i primi giorni bianchi,
È in Marzo che rinasce il mio cuore.
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Giacomo Balla
Tenerezze di primavera (1918)
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Sol de Janeiro


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Sol de Janeiro
Sole di gennaio


Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de Janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em Janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para
luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei
tanto que o vento lhe desse oportunidade).
O nosso amor
é Janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
está sempre lá.
Mai come oggi ho prestato tanta attenzione
alla
luce del sole di gennaio. Forte
ma delicata. Furtiva
ma
prolungata. Non arde né fa tremare.
Non è densa né chiara. La
luce
del sole di gennaio:
così è il nostro amore
celato dall’inchiostro dei giorni
spia solamente l’apparire d’un’apertura
(una distrazione delle nuvole)
per
brillare e irrompere
(mai prima d’oggi ho sentito tanto il bisogno
che il vento gliene desse l’occasione).
Il nostro amore
è gennaio:
anche se lo ritengo dimenticato
so che
è sempre là.
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Edward Hopper
Gente al sole (1960)
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As Empregadas Fabris


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As Empregadas Fabris
Le operaie della fabbrica


Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às
empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de operária
tocam umas nas outras como
inda fossem meninas mas a
delas que vai noivar já
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde
que nem esta chuva afaga
o
gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e
as tomam pela cintura. Um
foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
há nelas a incerteza de
não saberem se são
incompletamente infelizes.
Afferrano la mattina (le operaie della fabbrica)
le gambe come forbici
che tagliano il marciapiede
colpiscono il legno del tavolo con
una specie
di cartellino: una sirena le ha condotte qui
(loro
le lavoratrici febbrili)
perfetta linea delle anche sotto
gli abiti da lavoro
Si toccano l’una con l’altra come
se fossero ancora bambine ma quella
di loro che sta per sposarsi già
ha aperto la strada al primo E
quando la sigaretta si spegne
(o la
birra s’esaurisce) quel
che resta è la tristezza della sera
che neppure questa pioggia accarezza
il
gasolio dei ragazzi che
dedicano loro una canzone e
le prendono per la vita. Un
petardo mette fine alla festa
(sul lato interno della coscia)
in loro vi è l’incertezza di
di non sapere se sono
incompletamente infelici.
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Flora Lion
Mensa aziendale della Phoenix di Bradford (1918)
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Mil Escudos


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Este Lado para Cima (1994) »»
 
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Mil Escudos
Mille scudi


  6A23742907
  Mil Escudos
   ch.12
  Lisboa, 6 de Fevereiro de 1992

podia jurar que já tive esta nota na
mão gostava mais das de cem (Bocage
sempre era poeta) um de nós nunca
esquecia bigodes e cicatrizes sobre

o seu carão moreno assinando o curto
nome pelo banco de Portugal nomeando
nosso Bocage governador por uns dias.

a nota de mil amanhã será como a
tangerina (há tanto tempo na terrina
caiu na classe dos frutos secos).

vem aí outro dinheiro (aposto: vai
ser azul) guardo esta nota antiga na
caixa da ilusão esta nota é um país
em vias de extinção
  6A23742907
  Mil Escudos
   ch.12
  Lisbona, 6 Febbraio 1992

potrei giurare d’aver già avuto questa banconota in
mano però preferivo quella da cento (Bocage
è pur sempre un poeta) nessuno di noi
avrebbe mai scordato baffi e cicatrici sulla
 
sulla sua faccia bruna firmando col nome
breve per la banca del Portogallo che nomina
il nostro Bocage governatore per qualche giorno.
 
La banconota da mille domani sarà come il
mandarino (rimasto a lungo nella fruttiera
è finito nella classe della frutta secca).
 
ma poi arriva altro denaro (scommetto: sarà
azzurro) conservo questa vecchia banconota nella
scatola delle illusioni questa banconota è un paese
in via d'estinzione
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Banconota da 100 Scudi, Portogallo
"MM Barbosa du Bocage" (1981)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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