Imemorial


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Cassiano Ricardo »»
 
Um Dia Depois do Outro (1947) »»
 
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Imemorial
Immemorabile


Não fui quem sou, quando nasci.

Nem sou quem sou, quando amo.
Nem quando sofro.
Porque coexisto. Porque a angústia
é uma herança.

Só me aproximo de mim mesmo
quando fujo,
atravesso a fronteira,
ou me defendo, ou fico triste.

Ou quando sinto a rosa
secreta e quente da vergonha
subir-me à face.

O mar me bate à porta,
como um grito da origem.
Mas como descobrir
a onda imemorial que me trouxe?
Non ero chi ora sono, quando nacqui.

Né sono chi ora sono, quando amo.
Né quando soffro.
Perché coesisto. Perché l’angoscia
è un’eredità.

M’avvicino a me stesso solo
quando fuggo,
attraverso la frontiera,
o mi difendo o mi rattristo.

O quando sento la rosa
segreta e calda della vergogna
salirmi al viso.

Il mare batte alla mia porta,
come un grido delle origini.
Ma come scoprire l’onda
immemorabile che m’ha portato?
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Georgia O'Keeffe
Onda blu (1926)
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Ficam-me as penas


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Ficam-me as penas
Mi restano le penne


O pássaro fugiu, ficam-me as penas
da sua asa, nas mãos desencantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um voo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
L’uccello è fuggito, mi restano le penne
della sua ala, entro le mani scontente.
Ma, infine, cos’è mai la vita? Un volo, solamente.
Un ricordo e pochi altri piccoli niente.

È passato un forte vento, tra le azucene,
mi ha lasciato soltanto corolle strappate...
Da me prendon commiato le glorie terrene.
Ai miei piedi restano solo strade impolverate.

Veloce l’acqua scorre via, a me resta la spuma.
Solo il tempo non mi lascia cosa alcuna
poiché dell'anima stessa io sarò spogliato!

Una volta svelati gli ultimi segreti,
cerco d’afferrare la vita, che mi sfugge,
e le ore mi scivolano via entro le dita.
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Arman
Sveglie (1960)
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Carta para um amigo


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Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (giugno 2024) »»
 
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Carta para um amigo
Lettera a un amico


Meu amigo, venho agradecer-te
 por me deixares
 adâmico, sozinho no mundo
 experimentando a inutilidade
 desse mundo, quando só.
 
Meu amigo, venho agradecer-te
 a dádiva dessa solidão
 que tanto te haverá doído,
 se realmente eras meu amigo.
 
Meu amigo, venho agradecer-te
 o teres criado para mim
 a tua ausência
 que eu bebi e era amarga.
 
Meu amigo, venho agradecer-te
 quanto de mim encontraste
 e me deste, bom ou mau
 certa luz podre, mas também 
 uma fresca e límpida obscuridade.
 
Meu amigo, venho agradecer-te
 a gratidão.
Amico mio, ti scrivo per ringraziarti
 per avermi lasciato
 adamitico, solo al mondo
 a sperimentare l’inutilità
 di questo mondo, io da solo.
 
Amico mio, ti scrivo per ringraziarti
 per il dono di questa solitudine
 che tanto t’avrà addolorato,
 se realmente mi sei stato amico.
 
Amico mio, ti scrivo per ringraziarti
 d’aver creato per me
 la tua assenza
 che io ho bevuto ed era amara.
 
Amico mio, ti scrivo per ringraziarti
 per ciò che di mio hai trovato
 e m’hai donato, bene o male
 una certa luce putrida, ma anche 
 una fresca e limpida oscurità.
 
Amico mio, ti scrivo per ringraziarti
  per la gratitudine.
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Ernst Ludwig Kirchner
Schlemihl nella solitudine della sua stanza (1915)
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Elegia para minha mãe


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Elegia para minha mãe
Elegia per mia madre


Só me resta agora
esta graça triste
de te haver esperado
adormecer primeiro.

 Ouço agora o rumor
das raízes na noite,
também o das formigas
imensas, numerosas,
que estão, todas, corroendo
as rosas e as espigas.
 
Sou um ramo seco
onde duas palavras
gorjeiam. Mais nada.
E sei que já não ouves
estas vãs palavras.
Um universo espesso
dói em mim, com raízes
de tristeza e alegria.
Mas só lhe vejo a face
da noite e a do dia.
 
Não te dei o desgosto
de ter partido antes.
Não te gelei o lábio
com o frio do meu rosto.
O destino foi sábio:
entre a dor de quem parte
e a maior — de quem fica —
deu-me a que, por mais longa,
eu não quisera dar-te.
 
Que me importa saber
se por trás das estrelas
haverá outros mundos
ou se cada uma delas
é uma luz ou um charco?
O universo, em arco,
cintila, alto e complexo.
 E em meio disso tudo
e de todos os sóis
diurnos, ou noturnos,
só uma coisa existe.
 
É esta graça triste
de te haver esperado
adormecer primeiro.
 
É uma lapide negra
sobre a qual, dia e noite,
brilha uma chama verde.
Adesso a me resta soltanto
questa triste prerogativa
d’aver saputo aspettare
che t’addormentassi per prima.

Sento ancora il rumore
delle radici notturne,
ed anche delle formiche
immense, copiose,
tutte intente a corrodere
le spighe e le rose.
 
Io sono un ramo secco
su cui due parole
gorgheggiano. Nulla più.
E so che tu non senti già più
queste vane parole.
Uno spesso universo
duole in me, con radici
di tristezza e di gioia.
Ma io non vedo che il volto
della notte e del giorno.
 
Non ti ho dato il dispiacere
d’esser partito per primo.
Non ti ho gelato il labbro
con il freddo del mio viso.
Il destino è stato saggio:
tra il dolore di chi parte
e quello maggiore - di chi rimane -
ha dato a me, pur se più lungo,
quello che a te io non volli dare.
 
Che m’importa sapere
se al di là delle stelle
ci saranno altri mondi
o se ciascuna di esse
è una luce o una pozza?
La volta dell’universo
scintilla, alta e complessa. 
E in mezzo a tutto questo
e a tutti gli astri
diurni o notturni,
solo una cosa esiste.
 
E questa è la grazia triste
d’aver saputo aspettare
che t’addormentassi per prima.
 
È una lapide nera
sulla quale, notte e giorno,
brilla una fiamma verde.
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Egon Schiele
Madre morta (1910)
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A sintaxe do adeus


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A sintaxe do adeus
La sintassi dell’addio


O frio que a morte traz
quem o sente não é o morto.
O morto apenas esfria.
É o frio do calafrio...

E são os vivos que sentem.
Também os vivos têm medo
de olhar nos olhos do morto.
Ah, o terrível segredo.

E alguém, com dedos de rosa
vem e automaticamente
pra que o morto não nos veja,

lhe fecha as pálpebras como
a duas pétalas e adeus.
A-deus quer dizer sem Deus.
Il freddo recato dalla morte
non è il morto che lo sente.
Il morto si raffredda solamente.
È il freddo del brivido...

E sono i vivi che lo sentono.
Anche i vivi paventano
di guardare gli occhi del morto.
Ah, segreto agghiacciante.

E qualcuno, con dita di rosa
arriva e automaticamente,
perché il morto non ci veda,

gli chiude le palpebre come
fossero due petali e addio.
A-(d)dio vuol dire senza Dio.
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Gustav Klimt
Vecchio sul letto di morte (1913)
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