E tudo era possível


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E tudo era possível
E tutto era possibile


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Nella mia gioventù prima d’aver lasciato
La casa dei miei per mettermi a viaggiare
Io conoscevo già l’infrangersi del mare
Dalle pagine dei libri che avevo già letto

Quando arrivava maggio era tutto fiorito
La giostra dei giorni si metteva a girare
E si sentiva solo il sognatore parlare
Della vita come se la vita fosse già accaduta

E tutto avveniva in un’altra vita
E c’era sempre per le cose una via d’uscita
Quando successe? Io stesso non lo so dire

So solo che avevo il potere d’un bambino
Sentivo che le cose mi stavano vicino
E tutto era possibile bastava volere
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Albert Marquet
Il porto di Marsiglia (1916)
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Através da chuva e da névoa


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Através da chuva e da névoa
Attraverso la pioggia e la nebbia


Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual é a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?

Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos
Pioveva e t’ho vista entrare in mare
lontano da qui già tanto tempo fa
o amor mio il tuo sguardo
il mio sguardo il tuo amore
Più tardi t’ho guardata e neanche ti riconoscevo
Ora qui ricordo e mi chiedo:
Qual è la realtà di tutto ciò?
Alfine dov’è che proseguono le cose
e come proseguono sempre che proseguano?
Dietro di me non lascerò che tubetti di compresse
la casa gremita il nome sul registro delle firme
una menzione sul libro delle elementari?

Pioveva e t’ho vista entrare in mare
o amor mio il tuo sguardo
il mio sguardo il tuo amore
Che importa che altrove tu prosegua?
Tutto è morto: tu io quel tempo quel luogo
Che posso fare adesso di tutto questo?
Forse soltanto dire
pioveva e t’ho vista entrare in mare
E accettare l’irrimediabile morte di tutto e tutti
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Salvador Dali
Primavera necrofila (1936)
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Algumas proposições com pássaros...


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Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração
Alcune proposizioni con uccelli e alberi che il poeta integra con un riferimento al cuore


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
 Ao chegar dos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
 deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
Gli uccelli nascono sulla punta degli alberi
Gli alberi che vedo invece di frutta danno uccelli
Gli uccelli sono il frutto più vivo degli alberi
Gli uccelli cominciano dove gli alberi finiscono
Gli uccelli fanno cantare gli alberi
 All’arrivo degli uccelli gli alberi si espandono si animano
 lasciano il regno vegetale e vanno ad appartenere al regno animale
Come uccelli posano le foglie a terra
quando l’autunno scende furtivamente sui campi
Mi piacerebbe dire che gli uccelli emanano dagli alberi
ma lascio questo modo di dire al romanziere
è complicato e non è adatto alla poesia
ancora non è stato estrapolato dalla filosofia
Io amo gli alberi specialmente quelli che danno uccelli
Chi è che li appende là sui rami?
Di chi è la mano la sconfinata mano?
Io passo e mi si rinnova il cuore
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Gustav Klimt
L'Albero della Vita (particolare) (1909)
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A rapariga de Cambridge


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A rapariga de Cambridge
La ragazza di Cambridge


Queria conhecer intimamente conhecer
a rapariga anónima estendida no relvado
ao sol distante de um colégio de cambridge
Perdida na distância nem sei bem
se é uma mulher se rapariga
mais uma das amadas raparigas
Sei apenas que lê não sei o quê
e é simples objecto recortado
na margem verde intensamente verde
após a água mansa que reflecte os edifícios
Urgente é conhecer aquela que só veio num postal
mandado por alguém que certamente não sabia
o que essa rapariga ao sol para mim significaria
Ela devia saber um português profundíssimo
ou talvez as coisas que eu tinha para lhe dizer
as conseguisse de repente dizer num inglês
que fosse a melhor parte de mim
Definitivamente todo este dia-a-dia
contra o qual esmago a minha melhor lança
como que um sobressalto passaria
O meu reino pela rapariga de cambridge
Se eu a conhecesse mas no momento da fotografia
sentindo agora o que à distância sinto
pode dizer-se que seria feliz
Só assim o seria finalmente
há uma força obscura que mo diz
Vorrei conoscerla intimamente conoscere
l'anonima ragazza distesa sul prato
al sole distante di un college di cambridge
Perduta in lontananza neppure so
se è una donna o una ragazza
un’altra di queste care ragazze
So solamente che legge non so cosa
ed è un mero oggetto che si staglia
sul margine verde intensamente verde
oltre le tranquille acque che riflettono gli edifici
È urgente conoscere colei che qui è venuta solo in cartolina
mandata da qualcuno che certamente non sapeva
ciò che questa ragazza al sole avrebbe significato per me
Ella dovrebbe sapere un portoghese profondo e intimo
o forse le cose che io vorrei dirle
riuscirei a dirle direttamente in un inglese
che sarebbe la parte migliore di me
Definitivamente tutta questa routine
contro cui spreco le mie migliori frecce
tutto d’un tratto si dissolverebbe
Il mio regno per la ragazza di cambridge
Se io la conoscessi ma nell’attimo in cui fu fotografata
provando adesso quel che a distanza provo
si può ben dire che sarei felice
Solo così lo sarei finalmente
è una forza oscura che me lo dice
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Claude Monet
Sul prato (1876)
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Todos temos um Campos e um Caeiro


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Todos temos um Campos e um Caeiro
Siamo tutti un po’ Campos e un po’ Caeiro


Não sou simpático.
Nunca fui simpático.
Não sei ser simpático.
Por isso, não me peçam para ser simpático.
Nunca menti: não sei ser simpático
Por isso, nunca fui simpático.
E a minha simpatia é essa:
Não ter simpatia nenhuma.
Non sono simpatico.
Non sono mai stato simpatico.
Non so essere simpatico.
Perciò, non mi chiedete d’essere simpatico.
Non ho mai mentito: non so essere simpatico
E perciò, non sono mai stato simpatico.
E la mia simpatia è questa:
Non ispirare nessuna simpatia.
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António Costa Pinheiro
Eteronimo (1978)
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