Ferrugem nas folhas...


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Ferrugem nas folhas...
Ruggine sulle foglie...


Ferrugem nas folhas.
Dedos que não desatam,
passos tíbios na tarde.

Nada mais me transcende.
Sou eu, menos um.
Volto ao mito.

Orfeu entre samambaias.
A pobre lira de mil anos.
Ateu entre samambaias.

Caminho lento na tarde,
que nada me devolve,
senão um velho piano.

Colcheias ao vento.
Dedos dedilham o acaso.
Orfeu entre samambaias.

Em cima do piano — retratos.
Ali passaram crianças brincando,
mas os ratos roeram as teclas.

Entanto, através das janelas,
abertas para os jardins,
a vida abre suas pétalas.

Vendam a casa e os beirais.
O canto onde dormia lírico.
O vento comeu a paisagem.

Subsista apenas o piano,
animal de artrose e pó,
a desmembrar soluços.

Ruggine sulle foglie.
Dita tese, contratte,
passi stanchi nella sera.

Nulla più mi trascende.
Sono io, meno uno.
Ritorno al mito.

Orfeo tra le felci.
La povera lira dei mille anni.
Ateo tra le felci.

Cammino lento nella sera,
che nulla mi riporta,
se non un vecchio piano.

Crome al vento.
Le dita si gingillano col caso.
Orfeo tra le felci.

Sopra il piano — ritratti.
Di lì son passati bimbi giocando,
ma i topi han rosicchiato i tasti.

Frattanto, attraverso le finestre,
aperte verso i giardini,
la vita apre i suoi petali.

Che vendano la casa coi bei cornicioni.
L’angolo dove poeticamente dormivo.
Il vento ha corroso il paesaggio.

Che resti solamente il piano,
animale pieno d’artrosi e polvere,
a struggersi in singhiozzi.

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Joseph Beuys
Pianoforte rivoluzionario (1969)
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Fantasmas


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Fantasmas
Fantasmi


Bobagem esperar outra coisa,
pois tudo deu no que deu.
Não sobrou uma migalha na mesa
quando o último convidado sumiu.

Mas esqueceram a lâmpada acesa,
algumas portas e janelas abertas.
Desfecho apressado de festa,
em casa, agora, abandonada.

Então, os fantasmas pularam das molduras
e cada qual reassumiu seu posto.
Vovó Marieta traz o pudim de leite.
Tia Celeste se espichou no terreiro,

e jaz, transfigurada pela luz da lua.
Vovô Nagib ameaça com a bengala,
atazanado com tamanha bizarria.
Donana e o eterno bordado

cheio de flores azuis e andorinhas.
Tio Vicenzo atravessa as paredes,
e bêbado, no terno lastimável,
aponta, rindo, para minha mãe,

dançando acima dos telhados,
com uma rosa negra na boca.
E dança de pés descalços,
como se ainda fosse criança.

Os mortos são malcomportados.
Bando de funâmbulos em fúria,
refazem o que foi minha família,
fadada ao desastre e à insânia.

Porque insano sempre fui.
E por não saber mendigar,
me reduziram à indigência das palavras,
onde me recolho com meus fantasmas.

Assurdo aspettarsi qualcos’altro,
perché tutto finì come finì.
Non avanzò una briciola sul tavolo
quando l’ultimo invitato sparì.

Ma dimenticarono la lampada accesa,
qualche porta e le finestre aperte.
Epilogo affrettato della festa,
nella casa, adesso, abbandonata.

Allora, i fantasmi saltarono dalle cornici
e ciascuno riprese il proprio posto.
Nonna Marieta porta il budino di latte.
Zia Celeste si è distesa sull’aia,

e giace trasfigurata al chiar di luna.
Nonno Nagib agita il bastone,
maneggiato con grande distinzione.
Donana e l’eterno ricamo

pieno di fiori azzurri e di rondini.
Zio Vincenzo attraversa i muri,
e sbronzo, nel miserevole vestito,
indica, ridendo, la mia mamma,

e danza sopra i tetti
con una rosa nera in bocca.
E danza a piedi scalzi,
come se ancora fosse un bimbo.

I morti sono maleducati.
Banda di funamboli in delirio,
ricompongono quella che fu la mia famiglia,
destinata alla sventura e alla follia.

Perché io sempre fui folle.
E non sapendo mendicare,
fui ridotto all’indigenza delle parole,
dove mi raccolgo con i miei fantasmi.

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Candido Portinari
particolare del dittico Guerra e Paz
La danza di donne e bambini che giocano (1957)
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Chove lá fora


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Chove lá fora
Piove là fuori


Chove lá fora sobre as serranias de Aiuruoca.
Chove lá fora sobre o gado em aboio.
Chove lá fora sobre os bambuais e o rio.
Chove lá fora sobre antigos caminhos da minha infância,
com arapucas armadas e rolinhas,
e folhas úmidas nos pés descalços,
e lírios já orvalhados.
Chove sobre os pirilampos no escuro
em verde fosforescência.
Chove sobre o corpo de minha mãe doente,
exposto ao tempo e à febre.
Chove dentro do meu peito.

Chove uma chuva miúda e triste.
Chove, afinal, sobre os telhados do mundo.
Chove nos escombros do World Trade Center,
no Marco Zero da Grande América divinizada.
Chove sobre as mulheres iraquianas orando e balindo.
Chove sobre os campos de refugiados no Afeganistão,
em suas barracas esfarrapadas ventando;
assim como antes chovera nos campos de Sabra
 e Shatila,
e no Gueto de Varsóvia.

Chove na piazza de São Pedro, deserta,
e sobre os ombros encarquilhados do Papa.
Ouço a chuva caindo sobre minaretes e sinagogas
com seu ruído monótono.

Vejo a chuva molhando o corpo dilacerado de um
menino palestino,
com as mãos agarradas a uma pedra.
Chove nos capacetes metálicos dos soldados de Israel,
nas suas viseiras de aço e miras telescópicas.

Chove ainda hoje sobre mim,
bêbado, sozinho e urinando na chuva,
com um miserável soluço na garganta.
Eu sei que chove hoje e choverá para sempre,
em lento e definitivo dilúvio,
sem intervalo, nem instante,
até que tudo esteja submerso sob as águas,
e na superfície nada,
nada respire sobre as ondas.

Piove là fuori sulle montagne di Aiuruoca.
Piove là fuori sul bestiame cullato dal canto del pastore.
Piove là fuori sui canneti e sul fiume.
Piove là fuori sugli antichi sentieri della mia infanzia,
con trappole in agguato e colombelle,
e foglie umide sotto i piedi scalzi
e gigli aspersi di rugiada.
Piove sulle lucciole al buio
in verde fosforescenza.
Piove sul corpo della mia mamma malata,
esposto al tempo e alla febbre.
Piove dentro il mio cuore.

Piove una pioggia sottile e triste.
Piove, in fondo, su tutti i tetti del mondo.
Piove sulle rovine del World Trade Center,
sul Ground Zero della Grande America divinizzata.
Piove sulle donne irachene che pregano e gemono.
Piove sui campi dei rifugiati in Afghanistan,
nelle loro tende lacere sferzate dal vento;
così come prima era piovuto sui campi di Sabra
 e Chatila,
e nel ghetto di Varsavia.

Piove su Piazza San Pietro, deserta,
e sulle spalle incurvate del Papa.
Sento la pioggia che cade su minareti e sinagoghe
col suo rumore monotono.

Vedo la pioggia che bagna il corpo dilaniato
di un bambino palestinese,
con le mani aggrappate ad un sasso.
Piove sugli elmetti metallici dei soldati d’Israele,
sulle loro visiere d’acciaio e sui mirini telescopici.

Piove ancor oggi su di me,
ubriaco, solo, mentre urino sotto la pioggia,
con un miserevole singhiozzo in gola.
Io so che piove oggi e pioverà per sempre,
in un lento e definitivo diluvio,
senza pausa, né urgenza,
finché tutto sarà sommerso sotto le acque,
e in superficie nulla,
finché nulla respiri sopra le onde.

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Henri Rousseau detto il Doganiere
La guerra (1894)

Foi sempre o menino exemplar...


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Foi sempre o menino exemplar...
Fu sempre un bambino esemplare...


 A M. de Sá-Carneiro
 e ao Rui Bacelo

Foi sempre o menino exemplar.
Nunca foi além do seu nome,
Nunca correu atrás da luz
Quando ela, com as pombas,
Deixava a sua janela.

Foi sempre o menino exemplar —
Nunca amou mas temeu os vimes
E respeitava ciosamente os muros.
Foi feliz?
Foi sempre o menino exemplar.

 A M. de Sá-Carneiro
 e a Rui Bacelo

Fu sempre un bambino esemplare.
Mai andò al di là del proprio nome,
Mai corse dietro alla luce
Quando la luce, con le colombe,
Lasciava la sua finestra.

Fu sempre un bambino esemplare —
Mai amò anzi temeva le verghe
E rispettava coscienziosamente i muri.
Fu felice?
Fu sempre un bambino esemplare.

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Chaïm Soutine
Ritratto di un ragazzo (verso il 1920)

Um porto – a putrescência da chegada...


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Um porto – a putrescência da chegada...
Un porto – la putrescenza dell'arrivo...



Um porto – a putrescência da chegada,
Mescla de cânhamo, gasóleo, maresia.
Trepidação, gritaria, a água imunda,
Mas irisada com os rastos de óleo,
Um espelho talvez mais rigoroso.
Pestanejamos para habituar os olhos
Ao fim da viagem, às cores mais sombrias.
Resta saber se teremos de facto viajado,
Se nos tisnámos sob sóis bastantes
Para nos fazer mudar de pele,
Se fugimos às cordas de latitudes,
Se há longitudes que nos alcançaram,
Se o remisso regresso é só mais um revés,
Só mais um grau na translação da angústia.
O que saberemos quando se der o leve baque
Com que a terra nos recebe?
Un porto – la putrescenza dell’arrivo,
Miscela di canapa, gasolio, salsedine.
Trepidazione, trambusto, l’acqua sudicia,
Ma iridescente per le chiazze d’olio,
Uno specchio probabilmente più preciso.
Ammicchiamo per abituare gli occhi
Alla fine del viaggio, ai colori più cupi.
Resta da sapere se abbiamo davvero viaggiato,
Se i soli che ci hanno abbronzato sono bastati
Per farci cambiare di pelle,
Se siamo sfuggiti alle corde delle latitudini,
Se ci sono longitudini che ci hanno catturati,
Se lo svogliato ritorno non è che un’altra sventura,
Solo un rinviare d’un altro po’ l’angoscia.
Che cosa sapremo quando si sentirà il lieve urto
Con cui la terra ci riceve?

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Claude Gelée detto Le Lorrain
Lo sbarco di Cleopatra a Tarso (1642)

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