Poeta no supermercado


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Poeta no supermercado
Poeta al supermercato


I
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.


II
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
I
Indignarmi è il mio marchio quotidiano.
Aprire le finestre. Camminare sulle spade.
Fermarmi a metà d’una pagina,
alzarmi dalla sedia, indignarmi
è il mio marchio quotidiano.

Ci sono paesi in cui ci si aspetta
che l’uomo lasci crescere le zampe
anteriori, e bruchi l’erba, e porti
un giogo pesante come i buoi.
E ci sono i poeti che perdonano. Caschi
il mondo, e loro sono sempre contenti.
O non si rendono conto: c’è così tanto
da vedere in così poco tempo,
così fugace la vita, e così tanta morte...
Ma il cibo si scontra con i denti,
a voi dico che un giorno finirete per tremare,
insistere, correre, sudare, rompere i bicchieri
(indignarmi) è il mio marchio quotidiano.


II
Un uomo deve vivere.
e tu attento a non perderti
- un uomo deve vivere
sempre teso alla Primavera.

Deve vivere
pieno di luce. Sapere
un giorno dire addio a tutto questo
con un’insensata nostalgia.
Un uomo (una barca) finché dura la notte
canterà delle cose, sguazzerà
dentro la sua allegria.

Pieno di luce - come un sole.
Berrà dalla bocca dell’amata.
Farà un figlio.
Dei versi.
Sarà assalito dal mondo.
Avanzerà in mezzo a disastri,
in mezzo a misteri e incertezze.
Mangiatore di fuoco.

Parola,
un uomo dev’essere
prodigioso.
Perché è rischioso essere un uomo.
È molto difficile, ed è
(con la precarietà di tutti i nomi)
solamente l’inizio.
________________

Gino Severini
Suonatore di fisarmonica (1919)
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