A vida submarina


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A vida submarina
La vita sottomarina


Eu precisava te dizer.
Tenho quase trinta anos
e uma vida marítima, que não vês,
que não se pode contar.
Começa assim: foi engendrada na espuma,
como uma Vênus ainda sem beleza,
sobre a pele nasciam os corais,
pele de baleia, calcária e dura.
Ou assim: a luz marítima trabalha lentamente,
os peixes começam a consumir por dentro
o sal do desejo,
estão habituados ao sal.
Quando vês, a água inundou os pulmões,
neles crescem algas íntimas,
os olhos voltam-se para dentro,
para o sono infinito do mar.
As mãos se movem num ritmo submerso,
os pensamentos guiam-se pela noite
do Oceano, um anoite maior que a noite.
Tenho quase trinta anos e uma vida antiga
anterior a mim.
Daí meu silêncio, daí meu alheamento,
daí minha recusa da promessa desse dia
que você me oferece,
esse dia que é como uma cama
que se oferece ao peixe
(você não haveria de querer
um peixe em sua cama).

Quem atribuiria ao mar
a culpa pela solidão dos corais
pelas vidas imperfeitas
dos peixes habituados ao abismo,
monstros quietos
só de sal e silêncio e sono?
Eu precisava te dizer,
enquanto as palavras ainda resistem,
antes de se tornarem moluscos
nas espinhas da noite,
antes de se perderem de vez
no esplendor da vida
submarina.
Avevo bisogno di dirtelo.
Ho quasi trent’anni
e una vita marina, che tu non vedi,
che non si può raccontare.
Comincia così: fui generata nella spuma,
come una Venere ancora senza bellezza,
sulla mia pelle nascevano i coralli,
pelle di balena, calcarea e dura.
O così: la luce marina lavora lentamente,
i pesci cominciano a consumare dall’interno
il sale del desiderio,
sono abituati al sale.
Se guardi, l’acqua ha inondato i polmoni,
dentro vi crescono alghe intime,
gli occhi si girano verso l’interno,
verso l’infinito sonno del mare.
Le mani si muovono a un ritmo sommerso,
i pensieri s’aggirano per la notte
dell’Oceano, una notte più grande della notte.
Ho quasi trent’anni e una vita antica
anteriore a me.
Da cui il mio silenzio, da cui il mio disagio,
da cui il mio rifiuto alla promessa di quel giorno
che tu mi offri,
quel giorno che è come un letto
che si offre a un pesce
(tu non dovresti volere
un pesce nel tuo letto).

Chi imputerebbe al mare
la colpa per la solitudine dei coralli
per le vite imperfette
dei pesci abituati all’abisso,
mostri quieti
solo di sale e silenzio e sonno?
Avevo bisogno di dirtelo,
mentre le parole ancora resistono,
prima di trasformarsi in molluschi
nelle spine della notte,
prima che si perdano per sempre
nello splendore della vita
sottomarina.
________________

Ilja Jefimowitsch Repin
Sadko (1876)
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